Várias mulheres – entre as populações que se põem em fuga devido a ataques terroristas que têm assolado a província nortenha de Cabo Delgado – deixam-se abusar sexualmente em troca de alimentos e outros produtos de primeira necessidade.

“Há mulheres que se deixam abusar sexualmente em busca de sobrevivência, acabando por contrair várias doenças, principalmente HIV/SIDA”, revela Isac Maria, activista de saúde na Cidade de Pemba, capital provincial de Cabo Delgado.

De acordo com a Secretaria de Estado em Cabo Delgado,  cerca de 160 mil pessoas vivem com o HIV/SIDA naquele ponto do país, tendo-se diagnosticado, nos últimos meses, mais de 9.600 casos positivos.

“Maior parte destas mulheres envolvem-se com homens seropositivos e acabam contraindo o HIV”, afirma o activista, acrescentando que é urgente que se providencie produtos de primeira necessidade para que as mulheres não mais sejam expostas a esta situação.   

A província de Cabo Delgado, por ser detentora de significativas reservas de gás natural, tem sido vítima de ataques armados desde 2017, alguns dos quais são reclamados pelo  grupo extremista Estado Islâmico.

Por sua vez, os últimos dados divulgados no Inquérito de Indicadores de Imunização, Malária e HIV/SIDA em Moçambique (IMASIDA) apontam  que a província de Cabo Delgado possui uma taxa de seroprevalência de VIH na ordem de 13.8 por cento, uma das mais altas do país.

Segundo ACLED  (https://acleddata.com/#/dashboard) –  organização não-governamental que se dedica a estudos centrados na localização de conflitos armados –  os ataques em Cabo Delgado já provocaram mais de 3.100 mortes e, de acordo  com as autoridades moçambicanas, mais de 817 mil pessoas encontram-se deslocadas.

“Diariamente, chegamos a receber 12 a 14 pessoas seropositivas em busca de ajuda”, afirma o activista, acrescentando que  “algumas mulheres buscam ajuda após terem mantido relações sexuais com pessoas já infectadas.”

Para a minimização do trauma que estas mulheres carregam, Isac Maria defende a necessidade de o governo, em colaboração com seus parceiros estratégicos, criar um programa de reabilitação psicossocial para que as mulheres recuperem a saúde físico-psicológica.

“Estas mulheres foram abusadas sexualmente em troca de alguma coisa para comer. Elas precisam de apoio psicossocial, dado que se encontram em estado de choque, receiam que  os ataques voltem a afetá-las”, afirma o activista

“Alguns refugiados que se encontram nas tendas de reassentamento já perderam tudo, seus familiares, suas casas e seus bens materiais”, sublinha.

Burocracia na Assistência Humanitária Periga Doentes Crónicos

Isac Maria, activista de saúde há cinco anos – com actualmente 26 anos de idade – já trabalhou em diversas organizações sem ganhar um centavo sequer. Até que finalmente fosse integrado à Associação Kaeira, ganhando um subsídio de não mais que 2.500 (dois mil e quinhentos) meticais mensalmente.

Embora precise de estabilidade financeira, o activista afirma que, entretanto, não se deixa mover pelo dinheiro, o que realmente lhe interessa  é dar a mão aos portadores de HIV/SIDA e outras doenças.  

“Quero ajudar os necessitados, doentes crónicos”, afirma.

Quando Isac Maria não se encontra a operar na Cidade de Pemba, desloca-se até ao Distrito de Montepuez, onde presta assistência aos habitantes (portadores de HIV/SIDA) das localidades de Nyikwaka e Nakaka.

“A falta de transporte é um grande problema que os activistas enfrentam. Chegamos a percorrer, diariamente a pé, uma distância de 6 a 7  quilómetros, até à unidade sanitária em que se encontram os doentes para aconselhamento”, afirma o activista.

Observando diariamente a chegada de barcos repletos de pessoas que se vão refugiando em elevados números na Cidade de Pemba, exactamente nas águas do bairro Paquite, o activista sente-se indignado com a  morosidade na provisão de assistência  humanitária.

 “Os doentes crónicos, por sua vez, ressentem-se abundantemente, chegam a passar mal por falta de antirretrovirais e outros insumos básicos para a sua sobrevivência”, afirma o activista.

“Depois de os barcos atracarem, os  activistas põem-se a trabalhar arduamente na localização de doentes crónicos para que os mesmos  tenham a devida assistência”, acrescenta.

À semelhança do activista, instituições como Organização das Migrações (OIM) e Médicos Sem Fronteiras já apareceram publicamente criticando a morosidade na provisão de serviços humanitários, assim como apelando ao governo para que maximize esforços e evite burocracias na assistência aos deslocados.

“Nos centros de reassentamento, recebemos pessoas oriundas de várias zonas afectadas pelo terrorismo. O terrível é que estas mesmas pessoas falam línguas diferentes das nossas. Fica complicado ajudá-las, mas fazemos o máximo”, diz Isac Maria.

 O que acontece nos campos de reassentamento, de acordo com o activista, não é nada bom de se ver.

“Sem que sejas  da área de saúde, assustas-te com a reacção das pessoas, elas pensam que qualquer indivíduo, quando aparece nos campos de reassentamento, carrega a intenção de ofertar comida, pensam que queres distribuir comida”, lamenta Isac, adiantando que é por isso que se deve ser flexível na assistência humanitária, visto que as pessoas clamam por comida e outros bens essenciais.

Activistas em Risco por Falta de Material de Protecção Individual

Isac maria, que já carrega responsabilidades parentais, afirma ainda que um dos grandes desafios que os activistas enfrentam, pelo menos os da sua associação, tem que ver com a falta de material essencial de protecção individual.

“Lembro-me que outra vez, fui obrigado a assistir um doente de tuberculose sem material de protecção individual”, revela Isac, reconhecendo que colocara a sua vida em risco.

Por um lado, ele condena a atitude daqueles doentes que escondem a sua situação de saúde e, por outro, diz não perceber a motivação por detrás da desistência ao tratamento antirretroviral. 

“Algumas pessoas são muito fechadas. Não se pronunciam sobre a sua condição de saúde, recusam-se que têm HIV/SIDA e, passado algum tempo, acabam entrando em crise. Isso é muito triste porque, se elas não tivessem ficado em silêncio, teriam tido a devida assistência”, afirma.

Actualmente – para além de se dedicar ao activismo comunitário em prol da saúde de doentes crónicos, mas principalmente portadores de HIV/SIDA –  Isac Maria frequenta o curso médio de Medicina Geral, buscando robustecer as suas habilidades na assistência aos doentes.

“O meu irmão ajuda-me a pagar o curso. O meu subsidio não chega para muita coisa senão comprar algumas coisas para a  minha filha”, sublinha Isac.  

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