O suicídio, no contexto da saúde pública, sempre constituiu uma preocupação para os sistemas mundiais de saúde. Os países em via de desenvolvimento, assim como os desenvolvidos envidam esforços para reduzir casos de suicídio, tendo em conta os mistérios por detrás do mesmo. Ou seja, a questão-chave é a seguinte: quais são as reais razões por detrás do suicídio, fenómeno que vem tomando proporções alarmantes nos últimos tempos?

Respondendo à questão em análise, o sociólogo e assistente no Observatório Cidadão para Saúde (OCS), Stélio Nhenheze, afirma que o suicídio pode estar associado aos papeis sociais.

De acordo com Nhenheze – que falava no contexto do Dia Internacional do Combate ao Suicídio, celebrado no passado dia 10 de Setembro –  a sociedade pressiona o indivíduo a ser melhor, e quando este não consegue responder a tais papeis e pressões  busca satisfação e alívio doutras formas, através do consumo excessivo do álcool e uso de drogas, mas, em caos mais graves, este mesmo individuo tira a sua própria vida.

“O suicídio pode ser considerado um problema social, porque este  é praticado por aqueles indivíduos que não são aceites em grupos familiares, sociais e mais. A sociedade influencia o indivíduo de viárias formas,  desde a orientação sexual, emoções, comportamentos psicológicos, modo de ser e estar”, disse o sociólogo.  

Stélio Nhenheze, Sociólogo

O suicídio, segundo a Organização Mundial Saúde (OMS), está entre as 20 principais causas de morte em todo o mundo, superando a malária, o cancro da mama ou guerra e homicídio. Ou seja, perto de 800.000 pessoas morrem por suicídio a cada ano.

De acordo com dados do Ministério da Saúde (MISAU), em países de baixa renda, como Moçambique, muitos casos de suicídios estão ligados a momentos de crise, à fraca capacidade de gerir e lidar com tensões de vida, tais como problemas financeiros, rompimentos de relações afectivas, doenças crónicas, problemas no trabalho, conflitos no seio familiar, bullyng, entre outos.

Manica, Inhambane e Maputo são as províncias com o maior números de tentativas de suicídio no país. O relatório mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), datado de 2016, coloca Moçambique com uma taxa de 4,9 suicídios por cada 100 mil habitantes.

Dados revelados pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) apontam que as taxas de casos de suicídio variam entre países, regiões e sexo. No entanto, mais homens morrem devido ao suicídio do que mulheres (12,6 por cada 100 mil homens em comparação com 5,4 por cada 100 mil mulheres).

O suicídio é a segunda causa de morte na faixa etária dos 15-29 anos de idade, que concentra cerca de 79% a nível mundial.

As taxas de suicídio entre homens são geralmente mais altas em países de alta renda (16,5 por 100 mil). Para mulheres, as taxas de suicídio mais altas são encontradas em países de baixa-média renda (7,1 por 100 mil).

Dados da OMS, publicados em 2021, as taxas de suicídio em África são de 11,2 por 100 mil, na Europa 10,5 por 100 mil e no Sudeste Asiático 10,2 por 100 mil. Estas taxas são maiores do que a média global de 9 por 100 mil no ano de 2019. A mais baixa taxa de suicídio está na região do Mediterrâneo Oriental , na ordem de 6,4 por 100 mil.

No ano de 2021, as tentativas de suicídio na faixa etária de jovens e adolescentes, aumentou significativamente em comparação ao ano anterior, se no ano de 2020 o número de tentativas era de 3 mil e no ano a seguir os dados do Ministério da Saúde (MISAU) indicavam que mais de 4 mil pessoas tentaram suicidar-se no país.

Por seu turno, a Psicóloga Celma Ricardo, também ouvida pelo OCS, argumenta que quando se fala em pensamentos suicidas, deve-se ter em conta que “a pessoa já está a pensar em cometer o suicídio. A pessoa começa a idealizar o acto e depois passa a manifestá-lo através de palavras, actos, mudança de comportamentos e mais.”

“Para se chegar ao estágio de depressão, passa-se primeiro pela ansiedade. Se a ansiedade não for trada, a pessoa pode densenvolver a depressão e, como consequência disso, chega a pensar no suicídio como forma de aliviar a sua dor e sofrimento”, explica a psicóloga.

Celma Ricardo, Psicóloga

Redes Sociais VS Saúde Mental

A psicóloga alerta igualmente que as redes socias podem influenciar para que as pessoas desenvolvam pensamentos suicidas, “porque naquele meio social há pouca privacidade e muita exposição.”

Nos dias de hoje, afirma a especialista, as pessoas sofrem bullying cibernético por não serem aceites nas redes sociais, assim como por não resistirem a críticas e comentários ofensivos. Por conta disso, chegam a pensar em tirar a própria vida.

De acordo com Ricardo, a comunidade tem um papel crucial na prevenção deste mal “observando o comportamento dos seus integrantes e procurando saber o que está por detrás das suas perturbações mentais.”

“A sociedade, no geral, deve prestar apoio aos seus integrantes e não ridicularizar as pessoas que enfretam problemas emocionais, porque a depressão é uma patologia e não frescura, como muitos dizem”, sublinhou.

Dilema de quem perdeu familiar por suicídio

Dina Nhabinde é residente no bairro 25 de Junho, arredores da cidade de Maputo. O seu sobrinho de apenas 19 anos de idade suicidou-se em Fevereiro do ano em curso, com recurso a uma corda.

A tia conta que ele andava muito estranho tempos antes de cometer o suicídio, pois zangava e chorava por coisas consideradas pequenas.

“Lembro-me que, no aniversário da minha filha, em Dezembro do ano passado, por algum motivo desconhecido, zangou-se e mudou de comportamento repentinamente. A mãe conversou com ele e o consolou. Já na transição do ano, ele discutiu com o cunhado e começou a chorar. Ele já andava muito estranho. Antes de ele tirar a própria vida, um dia desses escreveu uma carta sem muita informação, onde estava escrito o nome completo dele e uma frase que dizia: Até Mais Um Dia”, explicou.

Foi em Fevereiro, mês em que iria completar 20 anos de idade, que decidiu tirar a própria vida.

“Foi num dia em que todos estavam em casa, quando a sua mãe lhe pediu para ir buscar couve em casa de uma outra tia. No entanto, ao invés de responder ao pedido da mãe, ele foi directamente à cozinha e pegou uma corda, amarrou-a na grade da janele e enforcou-se. Foi assim que perdeu a vida”, relatou.  Antes de se enforcar, disse a fonte, o jovem cortou-se os pulsos.

“Nós não fazíamos ideia de que ele poderia cometer esse acto, ele era muito jovem e tinha uma vida pela frente e muita coisa para viver, foi muito triste”, sublinhou.

De acordo com Nhabinde, o jovem andava com preguiça até  mesmo para comer, lavar a roupa ou fazer qualquer outra actividade. Fazia tudo como se fosse obrigado.  Quando a mãe lhe perguntava o que se passava, ele respondia que estava doente, “mas dizia que não era uma doença física, mas sim uma doença que estava dentro do coração”.

O movimento “Setembro Amarelo”, que tem por objectivo consciencializar a população sobre o suicídio, foi instituído pela OMS em 2003. A iniciativa surgiu através de um jovem que, antes de cometer o suicídio, pintou o seu carro de amarelo. Assim sendo, esta cor passou a simbolizar a luta contra o suicídio.   

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