Maulana Baquil – activista que se tem dedicado à assistência a doentes crónicos, mas especialmente portadores de HIV/SIDA, em vários distritos de Cabo Delgado — condena,de forma veemente, a discriminação que tem pesado sobre si, no exercício das suas actividades humanitárias, por simplesmente pertencer à religião muçulmana.

A discriminação e a desconfiança, provenientes de diferentes pessoas  daquele ponto do país, devem-se ao facto de o terrorismo, que até então motivou a deslocação de 800 mil pessoas  e a morte de acima de 3 mil, estar associado ao Estado Islâmico.

O terrorismo, em todo o mundo, tem sido associado à religião muçulmana e, em Moçambique, não é diferente. Estudos revelam que há um “tom” religioso na insurgência que se assiste em Moçambique.

Para a recuperação das zonas afectadas pelo terrorismo, o governo precisa de pelo menos 400 milhões de dólares.

“Apesar de boa parte, senão a maioria dos cidadão de Cabo Delgado serem muçulmanos, o facto de eu ser desta religião faz com que algumas pessoas olhem para mim com desconfiança quando vou prestar assistência às famílias”, revela o activista.

Nós, muçulmanos, estamos a ser vistos como malfeitores, sublinha Maulana, defendendo que nenhum ser humano deve ser discriminado ou atribuído um certo valor em função da sua pertença religiosa ou qualquer outra crença ou ideologia.  

Não obstante a discriminação, o activista, em exercício na  Associação Kaeria desde 2015, afirma que lida com todos os portadores de HIV/SIDA de igual modo.

“Trato a todos do mesmo jeito e com o mesmo carinho, até aqueles que de mim  desconfiam, logo  à  impressão. Para mim, são todos seres humanos”, afirma Maulana.

Língua como Barreira na Assistência aos Doentes Crónicos

Maulana Baquil, à  semelhança de seus colegas, percorre diariamente uma distância de 15 minutos  para manter contacto com os pacientes que têm beneficiado dos serviços da Associação Kaeria.

Entretanto, argumenta o activista, há muitas dificuldades no terreno.

“Não temos tido material suficiente para trabalhar. Além disso, há problemas com a língua, porque, com a situação dos deslocados, há muitas gente que fala línguas distintas”, afirma.

“Temos trabalhado com irmãos doutros distritos, provenientes de zonas distantes de Pemba, e a maioria fala línguas diferentes”, acrescenta.

Apesar das dificuldades, o activista afirma que os momentos são desafiantes e encorajadores.

Numa curta história, Maulana Baquil conta o seguinte: “na minha memória, ficou um caso de uma família que abandonou o tratamento de HIV. Quando a encontrei, estava num ponto crítico e decidi trabalhar com ela.”

Em seguida, quando o activista se apercebeu da melhoria da família, ficou emocionado, dado que a assistência salvara a vida de pessoas extremamente necessitadas, que, aos poucos, perdiam a vida.

“Foi um resultado óptimo, embora os técnicos de saúde tenham dito que eu estava a fazer um esforço em vão, porque a família era ‘rebelde’. Eu não desisti”, confessou.

São essas histórias que o activista pretende continuar a cultivar em mais lugares, com intenção de ver os trabalhos da Associação  Kaeria a abrangerem a mais distritos, nomeadamente: Ancuabe, Quissanga, Mecufi, Chiúre, Montepuez e Metuge.

Com maior apoio, sobretudo por parte do governo, o activista acredita que é preciso que haja instrução na criação de facilidades de modo que a população possa beneficiar de serviços de saúde de qualidade.

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