Casos de mau atendimento, diagnósticos errados e morosidade no atendimento a mulheres com cancro, no serviço de oncologia do Hospital Central de Maputo, a maior unidade sanitária do país e, por sinal, com as melhores condições para diagnóstico, têm colocado em risco a saúde de centenas de mulheres.

Pelo menos uma dezena de mulheres em conversa com o Observatório do Cidadão para Saúde (OCS) mostrou-se preocupada com estes casos.

Há alguns meses, o OCS recebeu denúncias de pacientes daquele hospital. Entre os casos alarmantes, destacam-se os diagnósticos errados e as longas filas de espera para o rastreio. De acordo com os pacientes, o primeiro caso está ligado ao erro médico e o segundo tem que ver com a morosidade na execução do diagnóstico por conta das restrições impostas pela Covid-19.

Os diagnósticos errados culminaram com a remoção desnecessária de mamas, diminuição de nódulo e centímetros a mais.

Abaixo, contamos histórias de vários pacientes que padecem de cancro. Os mesmos pacientes relatam erros cometidos, a vários níveis, por médicos do Departamento de Oncologia do HCM. Por uma questão de protecção das fontes, as denúncias manter-se-ão no anonimato.

Caso I

Carla (nome fictício) conta que, há cinco anos, sentiu um nódulo na mama esquerda e foi apalpando. Tendo percebido, volvidos meses, que o mesmo estava a mudar de tamanho, “dirigi-me a uma unidade sanitária próxima de casa, onde fiz os exames até que descobrissem que eu tinha, de facto, um nódulo no seio. De lá, recebi uma transferência para o Departamento de Oncologia do HCM. Estando no hospital recebi o diagnóstico, meses depois, que dava conta que eu tinha cancro e que, por isso, só devia remover o nódulo por meio de uma cirurgia.”

Inconformada com o resultado, e depois de muita leitura na internet, Carla decidiu recolher as amostras. Por via de um hospital privado, decidiu fazer um exame na vizinha África do Sul. Lá o resultado do exame indicou que ela tinha cancro da mama.

“Levei os exames para o HCM e confrontei os médicos com os resultados diferentes e com o facto de, na África do Sul, me terem informado que tenho cancro, mas os diagnósticos de Moçambique diziam o contrário. Esta situação criou um embaraço ao médico que me atendeu e atirou a culpa ao laboratório dos exames médicos, por sinal o melhor do país. Daí, fui encaminhada para um outro médico. Este disse-me que eu devia retirar o nódulo rapidamente e que devia também já passar por quimioterapia”, contou a doente.

Entretanto, a paciente questionou ao médico quanto tempo devia levar esse processo e ele respondeu que seria de forma imediata, devendo a paciente entrar na sala de cirurgia para que o tratamento iniciasse.

“Depois do erro nos exames, eu já estava com um pé atrás em relação à qualidade do atendimento e das informações prestadas. Os médicos nem me disseram que tipo de cancro da mama eu tenho. Esta é uma informação fundamental. Nestes termos, pedi um tempo para explicar a minha família o que estava a acontecer”, recorda-se a paciente Carla.

Em casa, Carla e a sua família procuraram juntar dinheiro, rapidamente, para obter uma segunda informação sobre os procedimentos na vizinha África do Sul. Lá, e após outros exames, a paciente foi informada que devia cortar a mama, remover o nódulo e tomar comprimidos específicos durante 10 anos. Portanto, não precisava de fazer quimioterapia, tal como se sugeriu em Moçambique.

“Eu tive sorte porque consegui juntar dinheiro para ter uma segunda informação médica sobre o meu estado e o tratamento que precisava. A minha pergunta é como ficam milhares de moçambicanos sem dinheiro (que são a maioria) nestes erros que são cometidos por nossos médicos?”, questiona a paciente.

Caso II

Mónica, tal como Carla, sentiu que tinha um nódulo na mama direita e dirigiu-se ao HCM. No local, e após exames médicos, que deram negativo para o cancro, a paciente foi recomendada a remover o nódulo e a tomar a medicação passa curar-se da dor que sentia.

“Fiquei em casa durante uma semana a medicar após a cirurgia, entretanto, a minha mama começava a crescer e voltei ao HCM para perceber o que estava a acontecer. Fui mandada para casa, pois diziam que o inchaço ia passar. Fiquei nesse vai e vem até a minha mama crescesse e ganhasse o tamanho de uma cabeça. Voltei ao hospital, disseram-me que tinha cancro e devia fazer quimioterapia. Mas que brincadeira foi esta durante seis meses? Fiquei indignada”, desabafou a paciente.

A sorte da paciente é que, também, conseguiu ser evacuada para África do Sul, onde removeu a mama num contexto em que nem sequer teria sido necessário, se tivessem agido conformemente em Moçambique.

“Fui informada que a remoção do nódulo foi mal feita e que se devia ter cortado um pouco mais a minha mama para depois medicar durante 10 anos. Bem, igual a mim existem muitos moçambicanos que até chegam a perder a vida”, desabafou a paciente.       

Caso III

No serviço de Pediatria do maior hospital do país, rumo ao segundo andar, onde se localiza o Serviço de Hemato-Oncologia, encontramos uma mãe e uma filha numa rotina de há anos.

“A minha filha tem linfoma, um cancro maligno”, desabafa Eurósia, acrescentando que o cancro começou a atormentar a sua filha em 2017, na Cidade de Chimoio, Província de Manica. A criança não sentia nenhuma dor, mas alguma coisa chamava atenção e preocupava os pais: um inchaço no pescoço.

“Estamos nesta rotina hospitalar há quase quatro anos”, narra a mulher, acrescentando que os médicos, em Chimoio, tinham diagnosticado tuberculose na filha. Fez o tratamento, mas aquilo não era tuberculose e o inchaço não desapareceu.

Segundo a mãe da menina, só em 2019 é que esta fez os exames e a biopsia, tendo se descoberto que se tratava de cancro. Eurósia lamenta que se tenha feito exames muito tarde à sua filha para se perceber se tinha linfoma ou não, embora tenha chegado ao HCM em finais de 2018.

“A médica disse que o cancro já se havia alastrado do pescoço para a barriga e para o fígado. Foi um grande choque receber esta informação”, contou a Utente, que, por via da quimioterapia, luta com a filha para vencer o cancro.

Caso IV

Marcos, 37 anos, foi diagnosticado cancro da pele, Carcinoma de Merkel. “Por se tratar de um tipo de cancro raro, as autoridades de saúde moçambicanas não conseguiram conter a doença após a administração de vários tipos de tratamento, durante anos. Por fim, recomendam que buscasse tratamento na vizinha África do Sul.

“Eu acho que em Moçambique, assim como no continente africano no geral, temos que melhorar muito a nossa capacidade de diagnosticar. Veja que mesmo na África do Sul, eu estava a receber um tratamento errado para o tipo de cancro que tenho. Cheguei à Alemanha e, em apenas 30 minutos, tinha sido feito o diagnóstico e fui imediatamente à sala de cirurgia. O que posso dizer é que não podemos tratar cancro sem equipamento e nem pessoal com capacidade de diagnosticar uma doença com tamanha complexidade”, disse o paciente.

Situação do cancro em Moçambique 

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que oito milhões de pessoas morrem anualmente no mundo devido a diversos tipos de cancro, sendo que Moçambique é responsável por 25 mil mortes. 

O tratamento do cancro em Moçambique tem evoluído significativamente ao longo dos anos, com a introdução de novas tecnologias, assim como formas de tratamento mais eficazes e com melhor qualidade para os pacientes. As autoridades de saúde asseguram que os cancros da mama e do colo do útero são os mais frequentes nas mulheres.

A instalação do Serviço de Radioterapia do HCM é um passo enorme para que pacientes deixem de se deslocar para fora do país à procura de tratamento. Na África do Sul, por exemplo, chegavam a gastar entre 600 e 800 mil meticais.

No país, estima-se que pelo menos 25.500 pessoas sofram de diferentes tipos de cancro. Destas, 5.3% têm cancro da mama e 17% padecem do cancro do colo do útero.

O cancro do colo do útero é um tipo de tumor maligno que ocorre na parte inferior do útero, causado por uma infecção do Vírus Papiloma Humano (VPH), que está ligado a relações sexuais desprotegidas. Em 2020, foram diagnosticados aproximadamente 4 900 novos casos, que resultaram em 3 000 óbitos.

Outro cancro que preocupa as entidades de saúde – e não só – é o da mama, o segundo mais frequente. Em média, são registados mais de mil casos por ano. O cancro da mama é um tumor maligno que se desenvolve na mama, como consequência de alterações genéticas num conjunto de células da mama, que passam a dividir-se de forma descontrolada.

A porta de entrada para os casos de cancro é o Serviço de Oncologia do HCM, onde – antes da Covid-19 – mais de 50 pessoas eram atendidas por dia. Em média, são feitos 30 internamentos, dos quais 25 são mulheres com cancro do colo do útero e da mama.

Mensalmente e, antes da Covi-19, eram operadas, na maior unidade hospitalar do país, oito a dez mulheres com cancro da mama, provenientes de todo o país. A maior parte das doentes chega com o tumor num estágio avançado e lhes é retirado o seio afectado.

A prevenção tem sido, até ao momento, a melhor arma para o combate desta doença, que segundo dados da Organização Mundial da saúde, 80 por cento dos casos diagnosticados precocemente podem ser curados. Para já, recomenda-se que a partir dos 40 anos de idade, sejam feitos exames de rastreio da doença, e uma mudança de estilo de vida, tais como: cuidados com a alimentação, bem como a prática regular de exercícios físicos.

Covid-19 Vs Cancro

No actual contexto da pandemia da COVID-19, no HCM há situações de descontinuidade dos serviços de saúde com impacto nos serviços de rastreio, diagnóstico e cuidados ao cancro. O OCS constatou que há muitos pacientes na lista de espera para diagnosticar se têm ou não cancro, sobretudo mulheres que dizem ter feito uma avaliação caseira e notado que têm um caroço ou um nódulo na mama.

O OCS considera preocupante a redução de serviços de diagnóstico de cancro por causa da Covid-19, pois está-se perante uma doença que quanto mais tarde é descoberta, menores são as hipóteses de se salvar a vida.

No entanto, a nossa tentativa de entrar em contacto com os serviços de Oncologia do HCM fracassou. Aliás, o encerramento de portas – como forma de refutar a prestação de declarações sobre os problemas que assolam os utentes do maior hospital do país – tem caracterizado a actual direcção.

Conclusões

O Observatório do Cidadão para Saúde (OCS) manifesta a sua preocupação para com as denúncias feitas pelos pacientes que frequentam os serviços de oncologia do HCM.

É inconcebível que os exames dos portadores de cancro deem negativo. A Inspecção do Ministério da Saúde (MISAU) é chamada a fazer o seu trabalho com independência e deontologia profissional, de modo a identificar as falhas e induzir mudanças, sem entrar no proteccionismo da classe (médica).  

Constitui um atentado aos Direitos Humanos e uma grave violação da Carta dos Direitos e Deveres do Doentes (CDDD) a morosidade no atendimento, que chega a durar meses, ao passo que os pacientes com sintomas de cancro esperam incansavelmente. Ter cancro não pode continuar a significar uma sentença de morte em Moçambique.

Como forma de tratar os doentes de cancro, cuja capacidade Moçambique ainda não tem, o Governo deve adoptar uma política de apoio às famílias desfavorecidas para que os membros também gozem do direito à vida. O Estado não pode deixar os seus cidadãos morrerem por uma doença que, em lugares muito bem identificados, podem ser tratados com sucesso.

Uma resposta

  1. Gravíssimo. Importa que haja uma resposta célere. Quantas pessoas condenadas à morte? Este é um problema que afecta a qualidade de vida e parece que o silêncio se transformou numa arma das direcções do ministério de saúde e de entidades conexas.

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