Na província de Manica, zona central de Moçambique, quando muitos retornam à casa com a intenção de descansar para, no dia seguinte, fazerem-se novamente ao trabalho, Dulce Naete,  jovem com 33 anos de idade, coloca-se no sentido oposto, abandonando o lar às 16 horas para, nas ruas da prostituição, sensibilizar as trabalhadoras de sexo sobre a prevenção de várias doenças de transmissão sexual.

Naete tem levado a cabo esta actividade de segunda à sexta feira, mesmo após ter-se feito, ao longo do dia, às unidades sanitárias onde trabalha, igualmente, como activista.

“Quando recebi a proposta de trabalhar como activista, alegrei-me. Pensei que as mulheres trabalhadoras de sexo tivessem  pouco conhecimento sobre o uso de métodos de protecção contra doenças de transmissão sexual”, afirma a activista.

Naete surpreendeu-se com a forma com que certas pessoas lidam com a própria saúde, chegando a afirmar que “conheci mulheres que apenas se preocupavam com o dinheiro, colocando a saúde em segundo plano.”

“Quando um cliente surge para me pagar mais do que tenho recebido, aceito envolver-me sem protecção”, diz Naete, citando uma das primeiras conversas que mantivera com uma trabalhadora de sexo.

Desta feita, para a activista, o trabalho de consciencialização e mudança de comportamento “não deve somente contemplar estas mulheres, é urgente que se consciencialize continuamente a sociedade sobre a importância da prevenção.”

A activista repudia irresponsabilidades, sublinhando que “a ideia de que fui contaminado e também devo contaminar deve acabar. Tento recordar estas mulheres sobre esta má ideia, sublinhando que o dinheiro não é mais importante que a saúde.”

“Algumas trabalhadoras de sexo não levam o HIV a sério, embora reconheçam a existência da mesmo”

A nossa fonte afirma que, ao longo de dois anos de trabalho como activista, tem notado que algumas trabalhadoras de sexo têm conhecimento da existência de doenças de transmissão sexual, mas não as levam a sério.

“Por isso, esta actividade, para a mudança de comportamento das mulheres trabalhadoras de sexo, é importante”, disse a activista, acrescentando que “a questão não está na falta de conhecimento, mas sim na falta de preocupação.”

 “Quero continuar como activista para passar conhecimentos capazes de trazer mudança de comportamento para o bem estar das mulheres.”

De acordo com Naete, “há falta de interesse. Existe conhecimento sobre o uso correcto do preservativo, mas quando surge um cliente, com um valor de  1500 meticais, exigindo manter as relações sexuais desprotegidas, elas acabam cedendo. Então, eu vim com outro ensinamento:  mesmo que venham com 50 mil meticais, não se pode deixar a vida desmoronar.”

“Elas acham que é somente o HIV, mas sempre desperto-as sobre gravidezes indesejadas, como consequência de relações sexuais desprevenidas”, acrescentou.

Durante estes dois anos de trabalho, afirma a activista, algumas mulheres ganharam consciência sobre a prevenção de doenças, assim como sobre gravidezes indesejadas.

“Elas receberam-me bem. Achei que fossem reagir mal”

Quando, pela primeira vez, pôs-se a consciencializar as trabalhadoras, Naete achou que pudesse ser recebida com repulsa, como se fosse mais uma concorrente naquele espaço. Sentiu medo e achou que não fosse conseguir cumprir com os seus objectivos.

“Mas fui bem acolhida e ganhei a confiança delas. Por causa dessa confiança, agora elas ligam-me para que lhes garanta um bom atendimento quando se fazem à unidade sanitária. Garanto que elas sejam bem atendidas para que não desistam do tratamento”, disse Naete.

“Quando o atendimento não é bom, os beneficiários desistem do tratamento”

A activista tem-se dividido entre a unidade sanitária e ponto de concentração das trabalhadoras de sexo. Em ambos espaços, ela desempenha papel de divulgadora de informação sobre saúde, assim como o papel de guardiã do funcionamento das unidades sanitárias.

“Hoje, por exemplo, soube que o atendimento estava fraco. Quando me disseram, fui atrás do técnico de saúde para informá-lo que devia cumprir com o seu papel. Ele disse que tinha ido assinar um documento, mas não era verdade. Tive de convidar-lhe a regressar ao seu posto de trabalho para atender a uma paciente dos meus contactos.”

“Há um risco enorme de desistência quando há mau atendimento em todas as áreas de saúde. As pessoas desistem de ir às unidades sanitárias e isso é grave. Então, é bom que os técnicos estejam sempre abertos para os utentes e pacientes.”

“O estigma mata mais que a própria doença. A pessoa esconde-se. Quer viver sozinha. Na verdade, quer morrer e a sociedade ajuda nesse processo”

Ao longo dos dois anos, ela já lidou com vários casos, tendo-se, entretanto, sensibilizado imenso com o caso de uma jovem de 22 anos que já se encontrava com o corpo debilitado, por conta da infecção pelo HIV.

“Aproximei-me  e quis saber sobre ela. Ao longo da conversa, ela falou sobre o seu estado e revelou que teria mudado de residência por causa da discriminação e, por temer mais estigma, preferiu não continuar com a medicação”, afirma a activista.

“Ela vivia escondida. Tinha o corpo já franzino e sem apetite para comer. Com o tempo, chegou, inclusive, a abandonar o trabalho e parou de medicar por um ano. Tendo duas filhas, a desistência na medicação constituía um mal. Fi-la pensar nas filhas e perguntei-lhe se queria que elas fossem órfãs e solitárias, já que não têm a assistência do pai”, conta Naete.

Em seguida, a activista encorajou a paciente para que não desistisse da sua própria saúde, assim como sublinhou que ela não se devia deixar abater por conta da vergonha.

“O estigma mata mais que a própria doença. A pessoa esconde-se. Quer viver sozinha. Na verdade, ela quer morrer e a sociedade ajuda nesse processo. Temos de para com esta atitude.”

“Hoje ela está saudável e inclusive a fazer um outro negócio”, contou a fonte, sublinhando que o retorno à medicação surgiu depois de uma conversa franca.

Situação das mulheres trabalhadoras de sexo em Moçambique

Em todo o mundo, estima-se que as mulheres trabalhadoras do sexo estejam em maior risco de infecção pelo HIV e desproporcionalmente afectadas pelo vírus.

Dados de 2011-2012, apontam que, em Moçambique, as trabalhadoras de sexo constituem uma população-chave no combate ao HIV.

A prevalência do HIV entre trabalhadoras de sexo é duas vezes mais alta, na ordem de 12.4% e cerca de 30,2 % das infecções anuais faz-se sentir entre trabalhadoras de sexo, seus clientes e parceiras dos clientes.

Uma resposta

  1. A cosciencializacao das trabalhadoras de Sexo sobre a prevencao e tratamento de HIV é um aspecto fundamental para apoiar nos cuitados a Saúde das trabalhadoras de Sexo.
    E nos como defensores de Saúde é nossa responsabilidade apoiar as nossas comunidades e pontos quentes, na desseminacao de mensagens chaves e acções que ajudem as trabalhadoras de Sexo no cuidado da sua Saúde, dos seus parceiros e seus filhos.

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