Chama-se Fernando Elias Mangujo, natural da cidade de Maputo, tem 44 anos de idade e é pai de uma menina de 14. Aos 21 anos começou a consumir drogas, acto que lhe custou o seu emprego como motorista e depois disso começou a roubar para sustentar o vício. Dentro da família já era mal visto, chegou a ser espancado na rua por causa de roubar e a sua aparência física parecia mais de uma pessoa com uma doença terminal. Mas então, a sua salvação veio quando foi instalada a Clínica Apto, que funciona no Centro de Saúde do Alto Maé, na capital do país, para o tratamento com a metadona para as pessoas que usam drogas. Soube deste medicamento com um membro da UNIDOS, organização que trabalha com Pessoas que Usam Droga (PUD).

Em entrevista ao Observatório Cidadão para Saúde, Mangujo afirmou que o tratamento com metadona transformou, por completo, a sua vida, pois já esteve no fundo do poço devido ao vício da droga, concretamente do consumo da heroína.

Acompanha, a seguir, a entrevista na íntegra.

Observatório Cidadão para Saúde (OCS): Quando e como começou o tratamento com metadona?  

Fernando Elias Mangujo (FEM): Comecei o tratamento de Metadona em 2021,  por ter me envolvido, durante muito tempo, com as drogas. Aliás, a maior parte da minha juventude passei usando drogas. Chegou um tempo que estava cansado de ser viciado, pois era uma pessoa que acordava e não pensava em mais nada, se não em consumir droga para poder me sentir bem. Mas não conseguia largar o vício, pois sempre que tentava parar, sentia aquelas dores da ressaca.

Quando eu comecei a consumir drogas já trabalhava como motorista, mas o vício foi mais forte que até me obrigou a abandonar o trabalho só para me dedicar apenas ao consumo das drogas.

A minha preocupação passou a ser pela droga, o que me levou a perder o emprego que tinha. Fui consumindo droga todo este tempo até a altura que soube, de alguém da UNIDOS, que ia iniciar o tratamento com a metadona para quem pretende deixar de consumir a heroína. A pessoa falou comigo em 2019, numa altura em que me encontrava numa fase muito avançada, mas também já tinha intenção de sair do vício, mas não conseguia por causa da ressaca, que é muito forte.

Quando ela me falou sobre este tratamento, pensei que fosse uma informação não fiel, tanto que quando começou de facto em 2020, eu não me preocupei em ir deixar o nome. Só que dois ou três meses depois, quando tive a certeza de que de facto era real, fui me inscrever e fiquei à espera da chamada por cerca de oito meses. Só iniciei a fazer o tratamento em Janeiro de 2021.

No entanto, quando comecei a tomar a metadona, tive cerca de duas semanas ainda a consumir drogas, porque não é imediatamente após o início do tratamento, que se consegue largar o vício. Há quem até leva um mês para deixar de vez o consumo das drogas, após o início do tratamento.

Então eu ia tomar metadona diariamente e ao mesmo tempo continuava indo consumir a heroína. Muitas das vezes a metadona trata imediatamente a ressaca física, mas a ressaca que é mais chata é psicológica. Eu consegui, depois de duas semanas, vencer a ressaca física (que são as dores, a falta de apetite e insónias) e só havia ficado a parte psicológica, de pensar todos os dias a rotina de acordar e ir à boca para se drogar. Mais 15 dias, graças a Deus, também a parte psicológica consegui vencer.

OCS: Quais acham que são as vantagens da metadona?

FEM: As vantagens de eu estar a tomar metadona são muitas. A primeira vantagem para mim é o facto de eu ter recuperado o meu emprego e agora estou a conquistar aquilo que andei a perder aos poucos com o vício. Fora isso, estou a cada dia a recuperar a minha auto-estima e a confiança na família. Não é fácil recuperar tudo de uma vez, uma coisa de cada vez. Eu só agradeço dia após dia pela minha saúde, pois sei que com isso vou conquistando tudo aquilo que perdi.

OCS: Tendo em conta que a nível do país, apenas existe uma clínica de metadona, qual seria o seu conselho para o Governo, uma vez que existem muitos jovens que consomem drogas e que talvez pretendem sair, mas não tem essa possibilidade porque noutros pontos não se encontra ainda disponível o tratamento?

FEM: O conselho que eu deixo é de que o Governo devia se preocupar em expandir a metadona para que ela não esteja apenas disponível em Maputo. No entanto, este é um assunto que já vem se falando desde 2021, de que o Governo pensa em abrir outras clínicas noutros pontos do país. A minha instituição (REAJUDE), juntamente com os outros parceiros como a UNIDOS e a RETO temos trabalhado no sentido de que o Governo desperte com vista a ajudar os outros irmãos que estão na mesma situação que um dia também estive, consigam ter acesso ao tratamento. De facto, se tu começas a tomar metadona enquanto sabes o que queres, ela funciona a 100%.

Quando és viciado na droga, por mais que apareça alguém a te oferecer um avião como troca para deixar a droga, o vício é mais forte que qualquer outra coisa. Então o que ajuda mesmo, é o tratamento com a metadona. Se a pessoa estiver focada e decidida, consegue sim largar o vício. É por isso que a nossa luta e as demais organizações, é mesmo de advocar para que haja expansão deste medicamento para outras províncias do país, com vista a abranger mais pessoas que usam drogas e que estão com a vida destruída por causa do vício.

Repetindo o meu conselho ao Governo ou a quem é de direito, é que seria de muita mais valia que expandissem o tratamento para salvar muitos jovens que estão a se perder neste mundo das drogas.

Voltando um pouco para trás, uma das coisas que me fez com que quisesse mesmo abandonar esta vida de usuário, foi olhar para as ruas, ver que muitos jovens, agem como mendigos, catando lixo para terem o dinheiro para se drogar. Muitas vezes quando andas na rua, vês muitos catadores de lixo, aqueles, na sua maioria são usuários de droga, não são pessoas malucas como muito se pensa. Literalmente dizendo, a droga é uma droga, é um assunto muito sério.

No meu percurso de usuário somei 20 anos, mas graças a Deus não cheguei a viver na rua, não fiquei sem tomar banho, não fui expulso de casa, não cheguei de catar lixo.

OCS: Onde apanhava dinheiro para comprar a droga, visto que já não trabalhava?

FEM: Se um dia estiveres a entrevistar um ex usuário de droga e te disser que nunca roubou, que nunca subtraiu alguns bens de casa, este está a mentir para si. Eu passei por estes momentos, de ter que roubar isto e aquilo em casa para ir trocar com a droga. Até fora de casa roubei, mas não nos vizinhos, mas sim distante da zona. Chegou um tempo que a família se uniu, porque nunca irás roubar e te dares sempre bem. Chega aquele momento que te apanham, ficas preso, então a família reuniu-se e achou por bem ajudar-me com o valor para poder consumir drogas, porque eles também conseguiam ver que era um vício que eu não conseguia largar, e que se tratava de uma doença e não um simples capricho de consumir heroína por vontade própria.

Foi exactamente nesse tempo que eu vi que devia e precisava mesmo abandonar as drogas.

OCS: Sabe-se que no ano passado, houve ruptura da metadona no país, por cerca de um mês, como é que foi esse período para si?

FEM: Quando houve essa ruptura da metadona, eu como já havia iniciado, estava habituado a todos os dias ir tomar medicamento. Mas de um dia para o outro, a metadona já não tinha. Na primeira semana fui gerindo a ausência. Uma coisa é certa, a metadona é benéfica, mas a sua ressaca por vezes chega a ser maior que a da heroína, quanto o medicamento não esta disponível. Quando consomes heroína e decides que queres deixar, ou ficas preso num sítio que não terás acesso a droga, se conseguires ficar 15 dias, pode se dar por vencedor. Se ficas preso enquanto já querias deixar, depois deste período, a ressaca da heroína já desapareceu.

Para dizer que na fase da ruptura, consegui ficar a primeira semana, mas quando chegou final de semana, a ressaca piorou e tive que voltar a consumir drogas.

Como a ruptura foi durante um mês, eu estava a consumir a droga. Não porque eu consumia por vontade, mas sim porque não conseguia conter a ressaca que sentia, que era muito forte. Mesmo assim eu tinha fé que o medicamento voltaria. Há colegas que conseguiram aguentar 15 a 20 dias sem ressacar, mas depois disso, também, tiveram.

Graças a deus a Metadona voltou e quando eu soube logo as 7:00 horas da manhã já estava lá para medicar. Porque quando vais tomar metadona os médicos aconselham a ir sem ter consumido drogas. O processo era praticamente de reinício por causa da ruptura.

Desde lá até cá não voltei a consumir droga. Rezo para que a ruptura não mais aconteça porque com o tratamento me sinto muito bem. Se dependesse de mim mesmo, nunca mais voltaria para heroína porque ela só tem desvantagens.

De referir que Francisco Mangujo faz parte da REAJUDE, uma organização que trabalha com a advocacia para que haja expansão da metadona. O seu grupo alvo são pessoas que usam drogas e mulheres trabalhadoras de sexo, assim como pessoas com HIV e SIDA. A REAJUDE faz encaminhamento aos usuários de droga para que façam tratamento.

“Se dependesse de nós, todos aqueles que são usuários de droga estariam a fazer o tratamento com a metadona, e a nossa luta é para que tenhamos medicamentos suficientes para todos no país”.

Esta entrevista está inserida na série de acções que o Observatório Cidadão para Saúde está a implementar com o objectivo de advogar para o alargamento da distribuição da metadona para mais zonas do país.

Estas actividades enquadram-se no projecto United For Prevention (U4P), que visa garantir que até 2025, a sociedade civil e as comunidades mais afectadas pelo HIV tenham conseguido influenciar os tomadores de decisão assim como resgatar o apoio político, financeiro para os principais marcos da prevenção do HIV em sete países, nomeadamente: Quénia, Malawi, Moçambique, Nigéria, Tanzânia, Uganda e Zimbabwe. (OCS)

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