O número de instituições que se dedicam à formação em medicina tem vindo a crescer, elevando, consequentemente, o número de profissionais na área, afectos em diversas unidades sanitárias espalhadas por quase todo o país.

De acordo com os dados do último Anuário Estatístico de Saúde, em 2021, o país contava com um total de 64,424 profissionais de saúde, o que corresponde a uma evolução em 8% em relação a 2020. Sendo que a distribuição do total de pessoal do SNS, por nível de ocupação profissional, mostrava uma evolução nos níveis superior e médio correspondente a 18% e 24% respectivamente. No entanto, para o nível básico e elementar houve uma redução de 17% e 14%, respectivamente.

Tabela 1 – Distribuição do Total de Pessoal do SNS por Nível de Ocupação Profissional

AnoSuperiorMédioBásicoElementarTotal
2019          9,368        25,138          7,491          16,127        58,124
2020        10,489        27,069        14,465          14,465        66,488
2021        12,341        33,683          5,937          12,463        64,424
Fonte: OCS com base nos dados do Anuário Estatístico de Saúde 2021

A prior, o alastramento destas instituições pode constituir uma mais valia para o país, na medida em que o aumento de profissionais de saúde corresponde à redução do rácio doente/profissional de saúde, o qual situa-se em 1 técnico de saúde e ou enfermeiro para 100.000 habitantes.

No entanto, a enfermeira em Saúde Materno Infantil (SMI), Vagma da Graça Silva, não olha para este cenário de forma pacífica, argumentando que há muitas instituições que se dedicam a cursos de saúde sem preencher os requisitos instituídos por lei para o seu funcionamento. Como consequência, os formandos chegam ao estágio sem as noções básicas sobre o uso de diversos instrumentos, incluindo as formas de manipular e aplicar uma simples injecção ao paciente.

Neste contexto, Vagma defende que o Governo deve ser mais exigente na abertura de institutos de saúde no país, como forma de travar a formação de pessoas que carecem de sensibilidade para lidar com matérias de saúde, colocando em risco a saúde dos pacientes.

Aliás, a admissão de profissionais sem conhecimentos básicos de saúde, muita das vezes acaba manchando todos os profissionais, pois, em alguns momentos, não se olha para a pessoa que cometeu o erro, acabando-se por culpar a equipa de todo o hospital.

“Há muitos institutos de saúde a serem abertos a cada dia que passa, mas as mesmas apresentam condições inadequadas no processo de formação de profissionais de saúde. Lidar com a saúde é lidar com humanos, é diferente de lidar com giz e apagador. É mais preferível termos apenas um instituto a formar profissionais com qualidade, ao invés de muitos institutos que formam pessoas vazias”, defendeu.

A enfermeira de SMI falava em entrevista ao Observatório Cidadão para Saúde (OCS) sobre os desafios do utente no acesso aos serviços de saúde em Moçambique. Para a entrevistada, constitui uma das grandes dificuldades no sector de saúde a limitação de equipamento e material cirúrgico em várias unidades sanitárias.

“O Governo deve alocar mais equipamentos e material cirúrgico na área de saúde, pois no local de trabalho enfrentamos muitas dificuldades. O material é escasso. No passado, o material era suficiente, mas agora não tem havido o mesmo apoio. Não só, algumas normas estão a ser ultrapassadas, estamos a esquecer que a nossa grande prioridade, nesta profissão, é a saúde dos nossos pacientes. Mas muitos agora pensam em ganhar dinheiro apenas”, frisou.

Na opinião da enfermeira de SMI, uma das maiores frustrações de um profissional de saúde reside na perda de um paciente.

“Eu digo sempre aos colegas que temos que trabalhar com consciência limpa”, sublinhou a profissional, lembrando-se que há tempos assistira uma gestante que, por  conta de acidente laboral, deu entrada no hospital.

“Apesar da atenção que lhe foi dada não foi possível salvar o bebé”, lamentou.

“Ela deu entrada nos serviços de obstetrícia. No entanto, era um caso que precisava de uma cirurgia. Consegui encaminhá-la para o bloco operatório, e, depois da operação, foi transferida para o Hospital Central de Quelimane, mas infelizmente perdeu o bebé”, narrou.

Vagma é enfermeira de SMI desde 2015 e revela que fazer o curso de enfermagem foi o mesmo que realizar o seu sonho de infância, uma paixão motivada pelo gosto de cuidar de mulheres e crianças.

“Quando queria concorrer para saúde, antes investiguei qual curso era ideal, tendo chegado à conclusão de que  o curso mais compatível com a minha paixão seria SMI (Saúde Materno Infantil)”, anotou.

Vagma tem como meta continuar a levar a cabo o seu trabalho com zelo e dedicação, embora não seja fácil por conta de situações que desincentivam o exercício profissional.

Para ela, trabalhar neste ramo requer muita atenção, alegadamente porque cuidar de mulheres e crianças não é tarefa fácil.

“O desafio é aprofundar mais e formar-me para ser obstetra. Caso não consiga, penso também em fazer licenciatura em pediatria”, contou.

Uma resposta

  1. concordo com a enfermeira, não só o Governo mas OBS, deve apoiar mais o Sistema Nacional de Saúde. Outro porém, é falta de campo de estágio, devidos os hospitais que andam superlotados. É um desafio para todos, uma vez que os Institutos Públicos também não tem espaço para todos.

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