A forma mais comum de as crianças contraírem o vírus do HIV/SIDA das suas mães  é denominada Transmissão Vertical (TV), que ocorre no período de gestação, durante o parto e/ou na amamentação. Para prevenir ou reduzir o risco desta transmissão de mãe para filho, é necessário que as mulheres grávidas façam a consulta pré-natal desde o início da gestação ou após a descoberta da gravidez. Em casos de infecção, é necessário que se faça um tratamento adequado com o profissional de saúde, fazendo-se seguimento às consultas do pré-natal para acompanhamento adequado e realização dos exames solicitados.

Perpétua Agostinho, na qualidade de activista de saúde na Associação Acoepaza, na cidade de Quelimane, província central da Zambézia, tem trabalhado com pessoas vivendo com HIV/SIDA e população-chave. Em entrevista ao Observatório Cidadão para Saúde (OCS), a activista revelou que o descumprimento das consultas pré-natais é uma das principais preocupações que a sua associação tem enfrentado diariamente, sendo que tal atitude chega a contribuir, de alguma forma, para o aumento do risco da transmissão do vírus de mãe para o bebé.

Segundo afirmou a activista de saúde, algumas não aderem às consultas por desconhecimento da sua importância e outras simplesmente por negligência. Para ela, é preciso que se faça um trabalho árduo nas comunidades, em particular nas zonas mais recónditas com vista a explicar as mulheres da necessidade delas aderirem ao pré-natal logo que descobrirem que estão grávidas, por forma a proteger os seus bebés de várias doenças.

“Em algumas comunidades da província da Zambézia, as gestantes não aderem à consulta pré-natal, o que de alguma forma acaba contribuindo para a ocorrência da Transmissão Vertical porque, até ao momento do parto, não se sabe qual é o estado de saúde destas mulheres e outras descobrem naquele instante que são seropositivos”, disse.

Além das mulheres que descobrem que são seropositivas na hora do parto, de acordo com Perpétua, existem igualmente pessoas seropositivas que se recusam de seguir o tratamento.

Segundo o Relatório Anual das Actividades Relacionadas ao HIV/SIDA, referente a 2021, tornado público pelo Ministério da Saúde (MISAU), a taxa de retenção precoce em Mulheres Grávidas em Tratamento Anti-Retroviral (TARV) situou-se entre 85% e 92% no primeiro mês, após o início do TARV e ao terceiro mês entre 88% e 93%, sendo que as médias de retenção foram de 89% para a retenção precoce de um mês e 90% para 3 meses.

Segundo o mesmo relatório, para garantir que a prevenção da Transmissão Vertical (PTV) seja eficaz, são necessárias acções conjugadas que incluam a chegada atempada à primeira consulta pré-natal, conjugadas com a oferta do pacote completo de cuidados para HIV e Sífilis, de forma atempada e contínua. Outras acções incluem a promoção do parto institucional, o engajamento do parceiro e intervenções para a melhoria da adesão ao tratamento e retenção aos cuidados.

Actualmente, ainda de acordo com os dados do mesmo relatório, o país conta com uma elevada cobertura da primeira consulta pré-natal (123%). Entretanto, ainda há constrangimentos na retenção das gestantes na consulta pré-natal, sendo que apenas 63% das mulheres grávidas tiveram 4 ou mais consultas pré-natais.

Igualmente, os partos institucionais continuam a ser um desafio a nível nacional, com 89% de cobertura.

Como forma de reduzir o risco da transmissão vertical do HIV, o MISAU refere que continuam em curso intervenções para expandir o acesso universal ao TARV para a mulher grávida e portadora de HIV, tendo-se mobilizado esforços para que todas unidades sanitárias, correspondentes a 95% da rede nacional, oferecessem a TARV para transmissão vertical.

Leia o relatório completo em:

file:///C:/Users/OBSERVATORIO/Downloads/Relatorio%20Anual%202021%20V8%2025.ABRIL.2022%20-%20Final.pdf

Num outro desenvolvimento, de acordo com Perpétua Agostinho, apesar da preocupação para com a Transmissão Vertical, há aspectos positivos que o activismo vai registando como, por exemplo, a sensibilização de pessoas que já tinham abandonado o tratamento para que retoma do mesmo.

“Em Nicoadala, por exemplo, no povoado 3 Pneus, deparei-me com situações de pessoas infectadas pelo vírus do HIV-SIDA e que, por nada, queriam aderir o tratamento. Mas consegui sensibiliza-los”, contou.

Um dos casos mais graves que a activista observou tem que ver com uma jovem que andava muito doente e que a família lhe estava a administrar o tratamento tradicional, mesmo sabendo que o tratamento certo para a sua doença era o Anti-Retroviral.

“Perguntei a mãe se já o tinham levado para o hospital e ela disse sim, mas que não melhorava, por isso que optaram pelo tratamento tradicional. Eu a pressionei para que falasse a verdade, foi quando confessou que a filha fez teste do HIV, acusou positivo, mas não queria aderir ao tratamento antirretroviral”, explicou.

Perpétua conta que acabou convencendo a paciente para que recorresse ao hospital, antes que fosse tarde. No entanto, apesar de a paciente ter feito o tratamento nos primeiros dias, acabou desistindo dos medicamentos, deitando-os ou escondendo-os.

 Foi preciso mais uma sessão de sensibilização até que ela entendesse que a melhor maneira de se salvar residia nos antirretrovirais.

“Quando ela começou a seguir o tratamento à risca, registou melhorias significativas e, até hoje, está bem. O segredo do HIV/SIDA é cumprir com o tratamento”, rematou.

Sobre os desafios com que se depara diariamente como activista, a fonte criticou a morosidade no atendimento aos doentes que dão entrada aos hospitais, sublinhando que muita das vezes, por negligência por parte do funcionários, estes levam muto tempo na fila de espera.

Perpétua denunciou igualmente a corrupção e a priorização de certos pacientes em detrimento dos outros.

“Não sei se existe uma regra ou lei para que priorizem certos indivíduos em detrimento doutros”, disse, sublinhando que “é uma das inquietações. Várias foram as vezes que assistimos situações de mau atendimento, morosidade e priorização de indivíduos de raça branca em detrimento dos da negra”, sublinhou.

“Outro grande problema com o qual nos deparamos, nas unidades sanitárias, tem que ver com a falta de medicamentos. Até o paracetamol, às vezes,  escasseia nos hospitais. Falta-nos também ambulância para o transporte dos doentes”, concluiu.

A Associação Acoepaza tem, actualmente, com cerca de 30 membros e conta com apoio de pessoas de bom coração para continuar levar avante as suas actvidades.

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