
Trata-se da Unidade de Apoio às Pessoas em Tratamento Opiáceo, denominada APTO, que se dedica ao tratamento de pessoas que usam drogas injectáveis, sobretudo da heroína, através de administração oral da metadona – um narcótico do grupo dos opióides que funciona com efeitos para neutralizar a dor e ressaca causada pela heroína. A unidade de atendimento gratuito está no Hospital Geral de Mavalane, na capital moçambicana, e é vista como uma solução estratégica para descongestionar a que está instalada no Centro de Saúde do bairro Alto Maé. Aliás, espera-se que na unidade recém inaugurada sejam atendidos cerca de 2 mil usuários de drogas até os próximos dois anos.
A construção do centro ora inaugurado custou cerca de sete milhões de meticais e faz parte de um projecto que inclui a criação de mais três, na cidade da Matola, Beira e de Nampula, cujo funcionamento será nos próximos anos. O financiamento destas unidades está orçado em cerca de 32 milhões de dólares mobilizados pela Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), mas a gestão está sob a responsabilidade do Ministério da Saúde, segundo revelou o representante daquela Organização Não Governamental, Adelino Chirindza.
A inauguração na terça-feira, 01 de Outubro, coube ao Secretário de Estado, Joaquim Vicente, que destacou a importância da unidade para a restauração da qualidade de vida dos usuários de drogas na capital do país.
Unidade sanitária ora inaugurada no Hospital Geral de Mavalane é a segunda que faz tratamento especializado com metadona, o que poderá contribuir para descongestionar o instalado no Centro de Saúde do Alto Maé, construído no âmbito de um outro projecto não associado ao FDC.
Cerca de 65 mil pessoas assistidas por uso de drogas no país

A inauguração da Unidade de Apoio às Pessoas em Tratamento Opiáceo (APTO) acontece numa altura em que aumenta o número de usuários de drogas atendidos nas unidades sanitárias devido a complicações adversas após o consumo. Só nos primeiros 6 meses deste ano, por exemplo, cerca de 65 mil pessoas foram assistidas pelos serviços de saúde mental devido a perturbações causadas pelo consumo de diversos tipos de drogas, sobretudo as ilícitas. A situação afecta sobretudo os adolescentes e jovens na faixa etárias de 15 – 34 anos, o que tem estado a sobrecarregar os serviços de assistência, uma vez que muitos têm sido internados devido à gravidade das situações. As cidades de Maputo, Matola, Beira e de Nampula lideram a lista de locais com maior número de pessoas atendidas pelo sector de saúde devido ao consumo de drogas (lícitas e ilícitas), segundo revelou a chefe de Departamento de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Nilza Fumo, que falava na sequência na inauguração da Unidade de Apoio às Pessoas em Tratamento Opiáceo (APTO), instalado no Hospital Geral de Mavalane, na capital do país.
Usuários de drogas enaltecem a oportunidade
A demanda de tratamento é maior, pelo que há cerca de 2 mil usuários de drogas na lista para atendimento baseado na administração da metadona e de assistência psicológica naquela unidade recém aberta. No local, o Observatório do Cidadão para a Saúde encontrou utentes com histórias comoventes que tratam do impacto negativo do consumo das drogas.
O jovem Hermenegildo Timane, 33 anos de idade, é um dos usuários de drogas que quer sair dessa situação por causa do impacto negativo das substâncias que consome, com destaque para a heroína. Usuário de drogas ilícitas há cerca de 16 anos, Timane está em busca, há cerca de três anos, por solução para se livrar do vício das drogas. Durante entrevista ao Observatório do Cidadão para Saúde, Timane defendeu a necessidade dos usuários de drogas ganharem a coragem e vontade de procurar solução para se livrar do vício, procurando atendimento especializado sobre o assunto.
“ Espero melhorar a minha vida porque estou cansado de sofrer com o vício de drogas. Cada vez que consigo algum dinheiro, vou comprar drogas. Isso está a desgraçar-me, por isso quero sair desta vida de drogas”, disse Timane, em forma de lamentação.
No mesmo local, além de partilharem o mesmo espaço para o tratamento, os utentes têm histórias em comum – o facto de estarem cansados de ver suas vidas ficarem desgraçadas por causa das drogas.
Já Dércio Manjate, 46 anos de idade, esperou cerca de dois (2) anos pela abertura da clínica de Mavalane para poder iniciar o tratamento contra o vício da heroína. Usuário de drogas há cerca de 20 anos, Manjate acredita que a dinâmica do atendimento na clínica ora aberta vai contribuir para o tratamento do maior número possível de pessoas que estão sofrendo por causa das drogas. Aliás, ele comprometeu-se em informar os demais usuários de drogas ilegais sobre a existência daquela clínica de tratamento gratuito contra as substâncias ilícitas.
Capacidade de atendimento diário

Para garantir o atendimento rápido foram alocados à unidade APTO dois (02) médicos, três (03) enfermeiros, uma (01) conselheira e um (1) psicólogo. Assim, por dia são atendidos pouco mais de 20 utentes, mas espera-se que o número possa chegar a 200 diariamente. O tratamento é diário e indeterminado sobretudo para os toxicodependentes crônicos e os utentes são admitidos após uma triagem, segundo explicou ao Observatório Cidadão para a Saúde, Yolanda Kuntuela, gestora daquela unidade.
Observatório Cidadão para a Saúde defende a causa
Importa destacar que o Observatório Cidadão para a Saúde tem estado engajado na implementação de uma série de actividades para ajudar a reduzir danos em pessoas usuárias de drogas. Entre Janeiro e Setembro de 2024, por exemplo, engajou-se em iniciativas de promoção da expansão da distribuição da Metadona. Por outro lado, entre as ações de advocacia realizadas pelo OCS estão entrevistas com membros do governo, responsáveis pela clínica do Alto Maé e pessoas que usam drogas. O conteúdo dessas entrevistas foi publicado no site do Observatório (https://www.observatoriodesaude.org/ex-usuario-de-droga-fala-sobre-como-a-metadona-transformou-a-sua-vida/; https://www.observatoriodesaude.org/tratamento-com-metadona-reduz-risco-de-contaminacao-pelo-hiv-nas-pessoas-que-usam-drogas/).
Mais recentemente, o Observatório Cidadão para Saúde participou, no dia 10 de Setembro, do workshop intitulado Redução de Danos – Expansão da Metadona: Desafios e Perspectivas. O evento tinha como objectivo reflectir, junto com os sectores-chave, sobre os desafios e perspectivas da expansão do tratamento de manutenção com Metadona, além dos benefícios da intervenção com parafernália nos locais onde são realizadas as actividades de redução de danos no país. (https://www.observatoriodesaude.org/workshop-sobre-reducao-de-danos-expansao-da-metadona-desafios-e-perspectivas/).


