Nos  dias  5 e 12 de Maio em curso, assinalou-se o Dia Internacional das Parteiras, assim como o Dia Internacional do Enfermeiro, respectivamente. As datas em alusão são celebradas com o intuito de exaltar as contribuições dos profissionais de saúde, entidades responsáveis pelo bem-estar das pessoas em todo o mundo.

Em Moçambique, as datas são marcadas por momentos de reflexão sobre a importância e contributo destes profissionais. O Dia Internacional das Parteiras, em particular, é marcado por debates e actividades no seio dos Enfermeiros de Saúde Materno Infantil (ESMI).

Com intuito de perceber os desafios que estes profissionais de saúde enfrentam diariamente, no exercício das suas actividades, o Observatório Cidadão para Saúde (OCS) entrevistou duas enfermeiras e estas foram unânimes em afirmar que o Sistema Nacional de Saúde (SNS)  precisa de melhorar as condições de trabalho, privilegiando a contratação de mais profissionais para que se possa fazer face à demanda nas maternidades.

As enfermeiras afirmam igualmente que, de forma frequente, são obrigadas a entrar em serviços de parto em condições inadmissíveis, que se caracterizam por falta de instrumentos de trabalho. Assim sendo, torna-se difícil trabalhar, embora as enfermeiras envidem esforços para que os partos ocorram sem sobressaltos, mesmo diante de dificuldades.

Para Cafrina Sefane, enfermeira que se dedica à Saúde Materno Infantil (ESMI), no Hospital Geral de Mavalane em Maputo, ser parteira significa dar assistência à mulher durante o trabalho de parto, “é fazer parte de um momento especial na vida de uma mulher, ajudando-lhe a ultrapassar os seus medos, dores e fraquezas no processo de vinda de uma outra vida ao mundo.”

“É um papel especial e importante que hoje é desenvolvido pela enfermeira de saúde materno infantil, que acompanha a mulher antes, durante e depois do parto”, disse.

Para a enfermeira Cafrina, a insuficiência de profissionais de saúde nas unidades sanitárias constitui uma barreira que acaba contribuindo para a baixa qualidade de atendimento.

“Isso também verifica-se nas maternidades, onde actuam as parteiras. Não temos parteiras suficientes e isso afecta negativamente a qualidade de atendimento, pois a carga de trabalho acaba sendo maior para as poucas profissionais que existem”, vincou.

Por outro lado, a enfermeira reiterou que constitui outro desafio a falta de material hospitalar, “conhecemos a difícil condição que o país enfrenta, e tais dificuldades fazem-se sentir nas unidades sanitárias e, consequentemente, nas salas de partos”, acrescentou.

Urge Valorizar Enfermeiras

Ainda sobre os desafios, Cafrina Sefane afirmou que, apesar do trabalho árduo, as parteiras ou simplesmente Enfermeiras de Saúde Materno Infantil não têm recebido a devida valorização – uma realidade bastante triste que se faz sentir através do baixo salário, o mais exíguo na classe dos profissionais de saúde.

Apesar das dificuldades, a parteira não deixou de condenar as cobranças ilícitas praticadas por alguns profissionais da sua classe, afirmando que “ as mesmas têm a ver com falta de carácter.”

“Eu poderia dizer que isso não constitui a verdade ou que as parteiras fazem cobranças ilícitas por conta do baixo salário que não chega para as despesas. Mas nada disso justifica tal prática, trata-se de falta de profissionalismo de algumas enfermeiras, que acabam manchando toda a classe”, referiu.

“Tanto as cobranças ilícitas, assim como a falta de humanização nas unidades sanitárias prejudicam toda a classe, que até chega a ser doloroso para quem tem trabalhado condignamente”, acrescentou a enfermeira, sublinhando que “as próprias pacientes ou familiares é que tomam a iniciativa e aliciam as enfermeiras/parteiras.”

“Estamos num país cheio de corrupção e a sociedade tem em mente que, para todo o atendimento no sector público, é preciso levar o dito refresco. Mas digo, as pacientes ou acompanhantes fazem isso inconscientes, fazem-no desesperadas e preocupadas”, anotou.

Cafrina deixou claro que um profissional deve estar ciente do seu trabalho, assim como dos seus deveres e obrigações, “e no fim do processo de parto, tanto a parturiente  assim como a parteira esperam por um final feliz, onde a mãe e o bebé estão juntos e saudáveis, embora possam existir complicações.”

“Muitas vezes, as complicações são imprevisíveis, ninguém as espera”, disse.

Jovens Devem Buscar Informações Sobre Serviço de Parto

A enfermeira manifestou igualmente a falta de serviços humanizados, argumentando que a sala de parto deve ser um local limpo e condigno por ser ponto crucial para a vinda doutros seres humanos.

 “Todas nós passamos por aquele momento e nada é  melhor que sermos nós mesmas a ajudarmo-nos. E sermos vistas como mulheres que ajudam outras mulheres”, frisou.

A parteira apelou igualmente para que as parturientes se mantenham mais informadas antes do trabalho de parto, dado que algumas que se dirigem à sala de parto achando o nascimento do bebé de imediato, ignorando a intervenção médica.

“Vejo mulheres pedindo ajuda a parteira para tirar o bebé num momento em que a dilatação ainda não está completa. Uma vez que a parteira não o pode fazer, é malvista. Então, há necessidade de se reforçar as palestras nas consultas pré-natais, para que as pacientes estejam psicologicamente preparadas”, disse, apelando a jovens-mães para que recorram a outros meios para a obtenção de informações sobre o trabalho de parto, sem depender das palestras que ocorrem nas unidades sanitárias.    

“Vamos ser essas mulheres que apoiam outras mulheres. Somos importantes e vamos lutar para a valorização da nossa classe”, rematou.

Desafio é Reduzir Mortalidade Neonatal

Por seu turno, Susana Magaia, responsável pelo sector de enfermagem materno-infantil na Direcção Municipal de Saúde da Cidade de Maputo, sublinhou que constitui um dos grandes desafios do município, bem como do país, no geral, reduzir a mortalidade materna e neonatal.

Para tal, reconhece que um dos principais passos a serem dados é a alocação de recursos humanos suficientes para responder à demanda de pacientes nas unidades sanitárias.

Magaia apontou ainda a falta de refeições para as próprias profissionais como um desafio, e “muitas vezes, elas acabam desenrascando-se.”

“Em relação às actividades, temos o problema de transporte para a realização de trabalhos no campo. Uma vez que estamos promovemos a saúde, devemo-nos deslocar às comunidades para divulgar informações sobre a saúde da mulher, criança e família em geral, assim como para oferecer os próprios serviços em brigadas moveis  e feiras de saúde”.

A enfermeira Susana explicou que muitas das vezes depende-se de parceiros de cooperação para a disponibilização do transporte, sem os mesmos os trabalhos ficam paralisados.

Susana concorda com Cafrina sobre as cobranças ilícitas, afirmando que as mesmas tem que ver com o carácter, “pois não podemos alimentar o mau espírito de que é por causa das condições e que as profissionais o fazem para suprir  as necessidades que não são supridas pelo salário. É sim falta de carácter das enfermeiras que assim agem”, sublinhou

“Se formos a ver, não são todos os profissionais que fazem isso. A minoria que o faz, acaba manchando toda a área de saúde”, acrescentou.

Neste contexto, apelou a todas as parteiras para que garantam a assistência de qualidade e humanizada, sabendo lidar com as honestamente com as dificuldades do ofício.

“Vamos oferecer o melhor de nós para garantir o bem estar da mulher, assim como da criança”, concluiu.

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