Cerca de 40 jornalistas de diferentes órgãos de comunicação social, incluindo as Rádios Comunitárias a nível nacional representada pelo Fórum de Rádios Comunitárias de Moçambique – FORCOM, beneficiaram, na última quarta-feira, 13 de Março, de uma formação em matéria de novas terapias no domínio da prevenção de HIV em Moçambique, com foco no tratamento de manutenção com Metadona para Pessoas que Usam Drogas (PUD).

Organizada e liderada pelo Observatório Cidadão para Saúde (OCS), a capacitação tinha como objectivos abordar sobre a importância do tratamento com metadona para pessoas que usam/injetam drogas e garantir que a comunicação social promova mensagens informativas com impacto positivo sobre os desafios que este grupo de população-chave enfrenta no acesso aos serviços de saúde em Moçambique.  

Conforme explicou o coordenador do pilar de Participação Pública no OCS, António Mathe, este exercício de formação constitui uma mais valia principalmente porque aborda sobre um tema ainda controverso na nossa sociedade, mas com grande utilidade pública, dai a relevância de envolver e engajar os órgãos de comunicação social que tem um papel importante e forte capacidade de influenciar a opinião pública e a partir daqui dar voz a grupos vulneráveis como é o caso das PUD.

“Como organização que trabalha na área de governação do sector do sector de saúde, com este evento pretendemos, também, influenciar os tomadores de decisão para que sejam mais sensíveis a esta problemática de saúde pública que tem impacto nas comunidades, famílias, na economia, visto que é mais caro para Governo manter o controlo e/ou gestão das Pessoas que estão usando drogas do que a possibilidade de estarem administrar a metadona – sendo que neste momento ela é gratuita, e no estado de saúde deste grupo”.

António Mate, coordenador do pilar de participação pública no OCS

“Portanto, percebemos que a resposta multissectorial deve continuar a ser a grande aposta para que possamos a curto e médio prazo medir os progressos das nossas ações relativamente aos resultados que se pretendem alcançar no âmbito das novas terapias de prevenção ao HIV para as pessoas que usam drogas, muito focado para a manutenção de tratamento com base na metadona”, explicou.

Apesar dos esforços do Governo, o OCS espera que haja ainda mais comprometimento para que a metadona possa ser distribuída em larga escala em Moçambique, avaliando que actualmente apenas o Centro de Saúde do Alto Maé, através da Clínica APTO é que presta cuidados de saúde com base no tratamento com metadona para os PUDs, com suas limitações em relação ao nível de resposta a demanda que tem crescido cada vez mais.

“Porque a abordagem do Observatório consiste em promover ações baseadas no princípio da inclusão, equidade, respeito pelos mais vulneráveis a riscos e não deixar nenhum grupo ficar para trás, a nossa pauta primou pelo envolvimento de jornalistas da comunicação social de pessoas com deficiência para que sua voz possa também ser ouvida e informada”, disse Mathe.

Plano Nacional de Prevenção de Consumo de Drogas e Redução de Danos

O evento, realizado em formato híbrido (presencial e virtual) contou com a apresentação da psicóloga clínica nos Serviços de Saúde da cidade de Maputo, Ana Manhique, que falou do Plano Nacional de Prevenção de Consumo de Drogas e Redução de Danos (PCRD).

A psicóloga fez saber que em Moçambique, cerca de 8.840 pessoas procuraram os serviços de Psiquiatria e Saúde Mental por perturbações mentais e do comportamento decorrentes do consumo de drogas.

A cidade de Maputo e as províncias de Maputo, Sofala, Manica e Nampula são as que registam maiores casos.

De acordo com Ana Manhique, o PCRD tem por objectivo, prevenir a infecção pelo HIV e outras doenças de transmissão entre as pessoas que injectam droga (PIDs). Igualmente, visa promover as estratégias e ações de redução de danos, voltadas para a saúde pública e direitos humanos, de forma articulada inter e intra-setorial, bem como reduzir os riscos, as consequências adversas e os danos associados ao uso de drogas Injectáveis para a pessoa/cidadão, a família e a sociedade.

A oradora afirmou que a redução de danos é uma abordagem com evidência comprovada voltada para a proteção da dignidade humana, redução do estigma e minimização dos riscos para a saúde, sociais e legais para as pessoas que consomem drogas, para as pessoas que com elas se relacionam e para o país como um todo.

Entretanto, defende que para o sucesso desta abordagem importa que haja envolvimento e Compromisso de todos os sectores.

Constituem componentes do pacote, o aconselhamento e testagem de HIV, tratamento anti-retroviral, gestão de tuberculose, hepatite viral e de overdose, tratamento e substituição de opiáceos, disponibilização de preservativos, prevenção e tratamento de ITS, disponibilização de parafernália, assim como informação, comunicação e educação.

Ana Manhique, Psicóloga clínica

Expansão das actividades de reabilitação constitui desafio para UNIDOS

Igualmente, a formação teve a apresentação do Gestor de Programas da UNIDOS, Cídio Generoso, que partilhou a experiência da sua instituição sobre as actividades que tem levado a cabo com as pessoas que usam drogas.

Cídio fez saber que são algumas actividades da organização, a sensibilização para a mudança comportamento; busca dos beneficiários em situação de abandono/faltoso (encontros de gestão de casos); terapias de auto-ajuda envolvendo os beneficiários; identificação e seguimento de casos de violação de direitos humanos; bem como as sessões de terapias comunitárias com os pais, cuidadores e encarregados de educação.

“Não tem sido tarefa fácil, encontramos desafios no domínio da oferta do pacote completo de Redução de Danos; má percepção do pacote de disponibilização de Agulhas e Seringas na comunidade; ligação, retenção aos cuidados e tratamentos das PUD; discriminação no acesso aos serviços de saúde e justiça; e dificuldade de assegurar o acesso aos serviços de saúde destinados às mulheres que usam drogas”, sublinhou.

Constituem ainda dificuldades para UNIDOS, a expansão das actividades de reabilitação das pessoas que usam drogas, não somente com base na fé, mas sim com base na ciência; o envolvimento da família no processo de reabilitação dos beneficiários; re-inserção social dos beneficiários pós internamento (reabilitação); e a questão das rusgas que são levadas acabo pela Policia, que dispersam os consumidores (criando novos focos de consumo nos bairros em expansão) e distanciando alguns beneficiários dos cuidados e tratamento.

Cídio Generoso, gestor de programas da UNIDOS

Desafio é garantir o envolvimento das instituições chave

Por seu turno, Ernesto Abreu, Gestor do Centro Comunitário da Mafalala, explicou que o Centro Comunitário para  Pessoas  que  usam drogas (CCPUD) é uma instalação de base comunitária para pessoas que usam drogas, incluindo usuários de drogas injetáveis e não injetáveis

Na sua explanação, fez saber que o centro é um espaço seguro onde as PUD pode reunir-se e encontrar uma “voz comum”.

O principal objetivo do CCPUD é de fornecer serviços personalizados, de fácil utilização, respeitando o usuário de drogas, sem discriminação e que que sejam facilmente acessíveis  com vista  a  Reduzir a propagação de HIV e hepatites entre as pessoas que injetam Drogas através da implementação do pacote de redução de danos.

A semelhança da UNIDOS, o centro também enfrenta desafios ligados ao Quadro jurídico vigente no pais, que penaliza o consumo da droga, apresentando uma visão diversificada sobre a adição de drogas. Também é desafio garantir o envolvimento das instituições chave; o fraco conhecimento sobre o malefício do uso da drogas, ligado ao estigma e descriminação as pessoas que usam drogas; e a fraca capacidade de resposta para  benificiários e  familiares  que  procuram serviços  de  desintoxicação, reabilitação e  reinserção social.

Ernesto Abreu, gestor do centro comunitário da Mafalala

Tratamento com metadona reduz os custos sociais associados ao uso ilícito de drogas

Para falar do tema central da formação, Tratamento de Manutenção com Metadona para pessoas que injectam drogas, tomou a palavra a assessora clínica, Sara Silambo, em serviço na Clínica Apto, baseada no Centro de Saúde do Alto Maé, na cidade de Maputo, que falou das vantagens deste tratamento.

Começou por explicar que a dependência a droga é um estado de necessidade física e/ou psíquica de uma ou mais drogas resultantes do seu uso continuo ou periódico.

Segundo a assessora, a dependência a droga é uma doença crónica, pois não tem cura, no entanto existem maneiras de reduzir o impacto da doença, podendo ocorrer reincidência ou recaída.

“É possível controlar a doença por um longo período de tempo, contudo, podem existir episódios de recaída/ reincidência”, frisou.

Uma das formas de controlar a doença é através do tratamento de manutenção com metadona.

Conforme explicou Sara Silambo, Metadona é um medicamento da família dos opióides, usado para tratar a toxicodependência a Heroína, sendo que ela reduz e trata os sintomas de ressaca de heroína e também diminui os efeitos eufóricos de outros narcóticos.

De acordo com sua explicação, o Tratamento de Manutenção é uma intervenção baseada em evidências para pessoas dependentes de Heroína que substitui o uso ilícito, por medicamentos prescritos por médicos e administrados por via oral, como a Metadona.

Sara Silambo, assessora da Clínica Apto

O Tratamento com Metadona tem como objectivos, a redução ou interrupção do uso ilícito de opióides, redução ou interrupção da injecção do comportamento e do risco associado à transmissão de vírus transmitidos pelo sangue (HIV, HCV, HBV), redução do risco de overdose, redução da actividade criminosa, melhoria da saúde psicológica, emocional e física e engajamento nas Medidas de Redução de Danos.

Igualmente, visa diminuir a mortalidade e morbilidade, assim como reduzir os custos sociais associados ao uso ilícito de drogas.

A partir do momento que o paciente começa com o tratamento, ele reduz ou para de consumir drogas opióides; reduz a vontade de consumir heroína e o efeito de outras drogas; assim como ajuda o paciente a deixar de injectar drogas, diminuindo, o risco de contrair doenças transmitidas pelo sangue (HIV e Hepatites viras).

Também, diminui o risco de contrair HIV pela prática de sexo desprotegido; recupera a autoestima e alcança objectivos que antes eram impossíveis de serem alcançados pelo uso de drogas.

Os jornalistas consideraram a formação uma mais valia e que saem com informações e apropriação de ferramentas que lhes permitirão escrever matérias ligadas a esta temática com conhecimento e propriedade.

Admitiram que alguns aspectos abordados constituíam ainda um tabu, na medida que as informações que tinham em relação as pessoas que usam droga são os que os associam a criminalidade e marginalidade.

Acreditam que um maior investimento do Governo pode devolver dignidade as Pessoas que Usam Drogas, reduzindo ao mesmo tempo o sofrimento de muitas famílias moçambicanas. (OCS)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Banco Nedbank Moçambique

Nº de conta: 00024061001

Moeda: MZN

NIB: 004300000002406100148

IBAN: MZ59004300000002406100148

SWIFT: UNICMZMX

Banco Nedbank Moçambique

Nº de conta: 00024061110

Moeda: USD

NIB: 004300000002406111012

IBAN: MZ59004300000002406111012

SWIFT: UNICMZMX

×