Centenas de médicos marcharam esta terça-feira, na cidade de Maputo, contra  a violência pós-eleitoral, protagonizada pelos agentes da polícia. A marcha tinha sido proibida pela Polícia, mas os médicos romperam a barreira dos agentes e percorreram cerca de três (03) quilômetros enquanto ostentavam dísticos e entoavam cânticos revolucionários com mensagens emblemáticas: Povo no poder; Salve Moçambique; Este país é nosso; não mata o povo; a polícia também é povo.

Moçambique continua a ser palco de manifestações pós-eleitorais, envolvendo vários segmentos da sociedade. Esta terça-feira, 05.11.2024, por exemplo, na cidade de Maputo, foi a vez dos médicos que saíram à rua para protestar contra o atentado à vida dos manifestantes, algo protagonizado sobretudo  pela Polícia. Numa marcha que juntou cerca de 800 médicos, sobretudo jovens, os participantes ostentavam distintos e entoavam cânticos revolucionários cujas mensagens  apelavam ao fim da violência contra o povo, independente dos interesses partidários.

Em coro, os participantes gritavam várias frases emblemáticas: Povo no poder; Salve Moçambique; Este país é nosso; não mata o povo; a polícia também é povo. Afinal, a mensagem principal era direccionada à Polícia, uma vez que tem sido o resto mais visível de violência contra o povo.

Na ocasião, os  manifestantes percorreram cerca de três (03) quilómetros, desde as instalações da Associação Médica de Moçambique até desembocar na estátua  Eduardo Mondlane, na avenida com o mesmo nome. No local, sob olhar atento de vários curiosos e dos agentes da polícia, os manifestantes entoavam, repetidamente, cânticos revolucionários, pedindo o fim da violência contra o povo.

Durante a sua intervenção,  o presidente da Associação Médica de Moçambique, Napoleão Viola, destacou a necessidade de colaboração de todos os cidadãos na preservação da vida, independentemente dos seus interesses  religiosos, étnicos ou partidários no contexto actual.  Para Viola, nada justifica a repreensão violenta dos  manifestantes indefesos, daí que os médicos decidiram juntar-se aos protestos  contra qualquer tipo de atentado à vida.

” O nosso valor é a vida, então, não podemos  ficar indiferentes perante situações em que a Polícia prejudica a saúde do povo. Não estamos aqui por motivos políticos, mas, sim, por razões de preservação da integridade humana em termos de saúde e vida. Basta de violência” disse o  presidente da Associação Médica de Moçambique, Napoleão Viola. 

Forte Contigente da Polícia Tentou Intimidar os Médicos Manifestantes

Ao longo do percurso da marcha, o grupo foi monitorado de perto por um forte contingente da Polícia, composto por cerca de 50 agentes distribuídos em quatros carros de patrulha da polícia de protecção civil e um da Unidade de Intervenção Rápida (UIR).

Inicialmente, aquando (semana passada) da submissão da carta ao comando da PRM para informar sobre o itinerário, a marcha foi proibida pela Polícia alegando falta de efectivo para garantir segurança dos participantes durante o percurso, tendo apenas autorizado os protestos num único  local – frente à sede da Associação Médica de Moçambique.

Já esta terça-feira, com os  ânimos  exaltados, os participantes romperam a barreira feita pelos agentes da polícia e marcharam, pacificamente, até à estátua Eduardo Mondlane, alegando estar a agir dentro da Constituição da República de Moçambique (CRM), uma vez que  manifestação é um direito consagrado  (artigo 51) e direito de resistência (artigo 80) sobre o não acatamento de ordens ilegais.

Aliás,  para o espanto de todos,  o número de agentes da Polícia multiplicou-se rapidamente quando os manifestantes (médicos) decidiram marchar à revelia da Polícia que havia alegado falta de efectivo para garantir a segurança dos participantes.

“É inadmissível escassear medicamentos para hospitais, mas haver muito stock de armas e balas contra o povo. Não vamos nos deixar intimidar. Povo no poder. Estamos com o povo, pois todos somos o povo. Estamos aqui, de forma pacífica, para dizer não à violência. Os agentes da polícia não devem abusar da força para intimidar o povo, afinal eles também são o povo a quem devem proteger”, disse um dos manifestantes que teve iniciativa de romper a barreira dos agentes da polícia contra  a marcha.

Mas, independentemente do rompimento da barreira, a marcha terminou sem incidentes de violência, o que levou os médicos a aplaudirem a actuação da Polícia destacada para o local.

Médicos Preocupados com Dados Clínicos Politicamente Correctos

Os médicos estão a fazer monitoramento paralelo do impacto das manifestações populares pós-eleitorais ao sector da saúde, para confrontar com os cenários – considerados politicamente correctos – apresentados pelos gestores do sector da saúde.  

Durante a marcha desta terça-feira, por exemplo, o Observatório Cidadão para a Saúde, soube que 10 pessoas mortas foram encaminhadas à morgue do Hospital Central de Maputo (HCM) e outras 22 atendidas em diversos serviços daquela unidade, só no período da noite desta segunda-feira, com sinais de baleamento pela Polícia.

Este tipo de informação, segundo a fonte médica do HCM que pediu falar em anonimato, tem sido manipulada pelos gestores da saúde de modo a minimizar o cenário da violência da Polícia contra os manifestantes.

Aliás, foi nesse contexto que no passado dia 29.10.2024, numa conferência de imprensa, realizada na cidade de Maputo, a Ordem dos Médicos de Moçambique e a Associação Médica de Moçambique revelaram dados preocupantes, não anunciados pelas autoridades oficiais, sobre o número de vítimas da violência da polícia durante as manifestações.

As duas organizações revelaram, por exemplo, que entre os dias 18 e 26 de Novembro, foram atendidas 73 pessoas vítimas de armas de fogo, tendo 10 pessoas perdido a vida na sequência do agravamento do estado clínico, em várias unidades sanitárias do país.

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