Os relatos sobre os benefícios do tratamento com a metadona para as pessoas que usam/injectam drogas, especificamente a heroína, já mexem com muitas pessoas. Vários consumidores que têm contacto com pacientes que estão a fazer o tratamento expressam a vontade de também se beneficiarem da medicação por acreditarem que esta seja a única forma de lhes fazer largar o vício do consumo.

Para além de deixar o vício, têm esperança de recuperar as suas vidas jogadas fora por causa do uso de drogas. Contam que têm testemunhado, através dos pacientes que tomam a metadona, diversos ganhos, desde a recuperação em termos do aspecto físico, prestígio e confiança na sociedade e família, bem como a recuperação de bens perdidos no âmbito do consumo das drogas.

No entanto, mesmo com esta vontade dos pacientes, continua o desafio de estes não poderem entrar no plano de tratamento por conta da insuficiência do medicamento e das clínicas a nível do país. Conforme o Observatório Cidadão para Saúde (OCS) escreveu nas anteriores publicações, a nível do país, só existe uma clínica de tratamento com Metadona, localizada no Centro de Saúde do Alto Maé, na cidade de Maputo. Esta, tem a capacidade instalada para tratar 200 pessoas, entretanto está a administrar a metadona, a 204 pessoas, superando a sua capacidade.

A clínica em funcionamento tem registados, mais de dois mil (2.000) pacientes na lista de interesse/espera. Estes poderão iniciar o tratamento ainda este ano, com a garantia de abertura de mais quatro clínicas, concretamente uma no Hospital Geral de Mavalane, na cidade de Maputo, outras na Matola, Beira e Nampula.

Leia mais sobre esta matéria aqui: https://www.observatoriodesaude.org/tratamento-com-metadona-reduz-risco-de-contaminacao-pelo-hiv-nas-pessoas-que-usam-drogas/

O Observatório Cidadão para Saúde entrevistou um casal de jovens que está no mundo das drogas há sensivelmente 10 anos. Trata-se de António Bernardo e Carolina Celina, de 26 e 24 anos de idade, respectivamente. Os dois conheceram-se numa boca de fumo quando iam consumir a heroína. Apaixonaram-se e levaram a relação em diante, tanto que hoje, Carolina está grávida de seis meses.

Antes mesmo dela ficar grávida, o casal já ouvia falar do tratamento com a metadona, mas o interesse mesmo em aderir a medicação surgiu após a descoberta da gestação, não só por pensar neles, mas na criança que esperam. Na verdade, a gravidez veio atiçar aquilo que era o seu desejo de sair das drogas, mas não tinham ainda um motivo convincente.

Com dois meses de gestação, há sensivelmente quatro meses, António e Carolina foram até a clínica para ver se podiam entrar no programa de tratamento, o que eles não sabiam é que havia limitação por conta da insuficiência do medicamento que entra no país. Agora, o casal faz parte dos dois mil pacientes inscritos que esperam pela abertura de novas clínicas para o tratamento.

A única possibilidade imediata que o casal teria, é se houvesse desistência por parte de um dos pacientes que já faz a toma. Mas mesmo assim, a prioridade seria a esposa do António, que está grávida.

Aliás, os quatro pacientes, dos 204 que estão a receber tratamento actualmente, são mulheres, que tiveram que ser encaixadas no programa porque estavam grávida e temia-se que estas pudessem perder os bebês, por conta das drogas.

Esta é a vontade do casal, que não vê a hora de iniciar a toma da metadona, pelo receio dela vir a perder a criança que espera.

“Nunca na minha vida desejei algo como agora, que quero, com todas as minhas forças, fazer o tratamento. Eu já queria sair do mundo das drogas, mas não tinha nenhum incentivo. Mas o medo de perder a minha primeira sorte é o meu maior motivo para eu querer sair. Não vejo a hora de ser chamada para começar”, disse Carolina, visivelmente ansiosa e esperançosa para que seja solicitada para o início da toma da metadona.

Carolina contou à nossa equipa que por vezes sente medo pela forma como o bebé tem se mexido na barriga dela e acredita que não seja um movimento normal, mas é motivado pelo consumo das drogas.

Igualmente, tem a certeza que a criança também ressaca, quando ela fica um dia sem apanhar a heroína.

“Eu quando passo mal a ressacar, o meu filho também está. Sinto que os chutes que ele dá, são muito diferentes, pois sinto que são de dor e não de alegria. É por isso que quero de verdade entrar para o programa de tratamento com a metadona porque quero muito a vida do meu filho. Se eu desejasse o contrário, seria uma pessoa sem sentimentos”, contou.

Em relação aos testemunhos sobre os benefícios da metadona, explicou que ela conhece várias pessoas que estão a beneficiar e que para além de lhe contar das suas vantagens, ela consegue ver a mudança nessas pessoas.

Algumas das quais foram as que lhe aconselharam a procurar a clínica, alertando-lhe dos prejuízos dela continuar a consumir heroína estando de barriga, pois à medida que ela consome, a criança também é afectada.

Neste contexto, espera, de quem é de direito, alargar o tratamento para que possa beneficiar mais pessoas, pois acredita que não é só ela que deseja o tratamento, são muitos na mesma situação.

“Não é em vão que ouço que a metadona ajuda, é porque eu já vi os seus resultados”, rematou.

No caso da Carolina, o consumo da droga começou na adolescência, incentivada por amigos, como uma simples brincadeira para sentir a sensação. Mas o que ela não esperava é que aquela brincadeira lhe levasse ao estágio em que hoje se encontra. Segundo a nossa entrevistada, se houvesse uma forma de recuar o tempo, certamente ela faria diferente.

Lembrar que em Mocambique, ao lado de idosos e crianças, as mulheres fazem parte de um dos grupos vulneráveis da sociedade pelo simples facto de serem mulheres, para o caso da nossa entrevistada, ela sofre discriminação por ser mulher, estar gravida e ser usuária de droga, o que a coloca numa situação muito difícil.

Por outro lado, segundo António, marido da Carolina, o maior desejo é que os dois, como casal, iniciem junto o tratamento, justificando da seguinte forma.

“Imagine que ela consiga entrar para o tratamento e eu não. Eu continuarei a fumar e isso pode-lhe influenciar a voltar a consumir as drogas. O mais certo seria nós os dois conseguirmos entrar para o tratamento ao mesmo tempo”, frisou.

Assim como a mulher, António também está ansioso para que eles sejam chamados para começar a beneficiar do tratamento, alegadamente porque estão cansados da vida que actualmente levam.

“Eu sou muito bom em trabalhos eléctricos, mas pela minha aparência, pelo estigma e discriminação que sofremos todos dias, não consigo nem sequer um biscate. É muita coisa que estou a perder da minha vida por causa das drogas. Está aqui a minha criança a caminho, não sei como vou poder sustentá-la porque não tenho trabalho. Acredito que se eu começar a fazer o tratamento, melhorar a aparência, conseguirei ter um trabalho para sustentar a minha família”, relatou, visivelmente desesperado. (OCS)

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