Nos últimos tempos – provavelmente por conta da pandemia da Covid-19 – algumas Unidades Sanitárias do país têm se debatido com a falta de insumos básicos para que os profissionais de saúde possam levar a cabo as suas actividades. Este cenário, desta feita, tem colocado em causa todo o Sistema Nacional de Saúde (SNS).

A incapacidade das unidades sanitárias, no que diz respeito à prestação de serviços de qualidade, está igualmente relacionada com a degradação das infra-estruturas (sem acesso à água: https://www.observatoriodesaude.org/problematica-da-agua-nas-unidades-sanitarias/), insuficiência de equipamento médico cirúrgico, escassez de medicamentos, entre outros.

Esta realidade tem desafiado continuamente os profissionais de saúde, obrigando-lhes a envidar esforços na assistência ao paciente e salvar vidas em contexto de dificuldades.

A enfermeira de saúde materno infantil Crilária Mazive, profissional com 13 anos de experiência, tem passado por dificuldades do género.  Ao longo da sua carreira já foi desafiada a intervir em partos complicados, sem condições médico-cirúrgicas, mas mesmo assim conseguiu salvar parturientes e seus recém-nascidos.

A enfermeira conta este episódio com satisfação, pois acredita que ser profissional de saúde consiste exactamente em mostrar empenho na salvação de vidas alheias, mesmo quando a realidade não favorece.

“No decurso da minha carreira, passei por vários episódios marcantes. Alguns alegres e outros tristes. Mas o que mais me marcou foi o facto de ter intervindo num parto complicado sem condições médico-cirúrgicas, e ter podido salvar a mãe e o seu recém-nascido”, explicou.

De um modo geral, Crilária, numa entrevista concedida ao Observatório Cidadão para Saúde (OCS), explica que, como profissional de saúde, tem enfrentado vários desafios, sendo que o destaque vai para a escassez de material, suplementos e transporte para os trabalhadores.

A enfermeira acredita que um reconhecimento efectivo para esta classe, por parte de quem é de direito, seria mais uma forma de destacar o papel desta classe profissional na sociedade.

“Não falo apenas por mim hoje. Na minha longa caminhada profissional, há muita coisa que me constrange. Na periferia, o enfermeiro é totalmente esquecido, trabalhando em condições deploráveis, faltando-lhe habitação, recebendo salário baixo, entre outros problemas”, acrescentou.

Para a enfermeira, estas situações deploráveis influenciam, nalgum momento, para que se desista da enfermagem e se mude de curso, em casos de novas oportunidades.

“Começamos a ter aquela situação em que um enfermeiro, numa unidade sanitária, está para uma comunidade inteira”.

“Havendo condições materiais disponíveis, o utente será a pessoa mais beneficiada, daí que urge a criação de mecanismos para a assistência humanizada ao utente”, explica a enfermeira.

Entretanto, a nossa entrevistada reconhece que o sector de saúde tem vindo a registar avanços significativos, para com destaque a possibilidade de os profissionais poderem dar continuidade aos estudos no ensino superior, o que significa ter mais profissionais capacitados para o tratamento de outras complicações avançadas de saúde.

“Apesar deste grande avanço, queremos mais e melhores condições de trabalho, como é o caso de infraestruturas e material. Precisamos, igualmente, de mais oportunidades para formações, intercâmbio com outros países, o que nos possibilitará o acesso a mais experiência no que diz respeito ao tratamento de novas doenças que têm vindo a surgir”, salientou.

É ainda seu desejo ver melhorada a questão dos salários para esta classe de profissionais.

“Que não se crucifique apenas o enfermeiro, deve-se dar  a mesma consideração que se dá a outros profissionais da minha área, particularmente os médicos, especialistas, e mais. Outras áreas de formação são consideradas, mas o enfermeiro não, ele é vitima de afastamento, ou seja ele é crucificado”, lamentou.

Refere que poucas são as vezes que o enfermeiro é dado razão, sempre é o culpado. Mesmo que seja por falta de material, por falta de condições de um atendimento mais eficiente, ele é sempre culpado.

“Mas há vezes que não é porque não queremos atender, mas porque não existem condições suficientes. Há centros de saúde que não possuem condições de trabalho, só há lá a própria infraestrutura, mas não existe nada dentro dela. Só que quando alguma coisa negativa acontece, o enfermeiro é que é culpado”, acrescentou.

No entanto, diz que quando há algum benefício não se lembram que alguém deu a sua vida para poder salvar, curar um determinado indivíduo.

Para terminar, afirmou que gostaria de assistir a um reconhecimento total dos enfermeiros, porque este também gostaria de desfrutar das regalias que outros profissionais têm.

Crilária Mazive, para seguir a área de saúde, foi influenciada pela avó materna que era auxiliar de serviços e apreciava a forma como os enfermeiros, naquele tempo, tratavam os seus pacientes, com amor e carinho. Para ela, este gesto devia continuar.

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