A eclosão da cólera em algumas províncias do centro e norte de Moçambique coloca em alerta as autoridades de saúde e outras organizações que trabalham em prol do bem-estar do cidadão.

De acordo com os mais recentes dados divulgados pelo Ministério da Saúde (MISAU), pelo menos 18 pessoas morreram em consequência desta doença no país. Os primeiros casos da cólera foram registados no distrito de Lago, província nortenha de Niassa, expandindo-se para as províncias centrais de  Tete e Sofala, e depois para a  província meridional de Gaza.

Na província de Tete, segundo fontes contactadas pelo Observatório Cidadão para Saúde (OCS), o distrito de Moatize, concretamente no posto administrativo de Kambulatsitsi, localidade de Mecunga, foi o mais afectado por este surto. Para se conter a situação, criou-se um centro de atendimento para responder às inquietações dos portadores desta doença.

De acordo com as fontes contactadas, a situação está controlada, uma vez que os pacientes que davam entrada aos centros, com doenças diarreicas e vómitos, tinham reduzido significativamente.

O mesmo cenário de estabilidade regista-se em Sofala, sendo que o distrito de Caia foi o mais fustigado, contando com um cumulativo de 400 casos positivos registados. Por outro lado, os distritos de Marromeu, Chemba e Chibabava registaram casos de diarreias, mas sem conformação de cólera.

No entanto, Rui Semente, activista de saúde em Sofala, falando ao OCS, afirmou que, por se tratar de uma doença endémica e tendo-se em conta que a chuva continua a cair no distrito de Caia, o cenário pode fazer-se sentir novamente, sendo necessário que se tome continuamente as medidas de contenção da doença.

“Neste distrito, as pessoas fazem as necessidades fisiológicas ao céu aberto. Tendo em conta que as chuvas continuam a cair, poderemos registar novamente casos de diarreicas. É preciso que se envide esforços para que evitar que as vidas sejam ceifadas por uma doença evitável”, frisou.

Sobre esta situação, o OCS entende que a falta de um plano multissectorial, envolvendo os municípios, o Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água (FIPAG), os ministérios da Saúde e Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, contribui para o alastramento da doença.

Recorrendo a uma explicação do coordenador do Pilar de Participação Pública no OCS, António Mathe, o saneamento do meio e o acesso à água potável constituem um dos principais determinantes de saúde, sendo urgente uma coordenação multissectorial para responder aos casos de cólera.

Para o coordenador, a responsabilidade de remover e lidar com os resíduos sólidos, assim como garantir a gestão do saneamento do meio cabe aos Conselhos Autárquico “no entanto, têm escasseado boas práticas”. Mas também, acrescenta que os munícipes jogam um papel importante e que seu envolvimento é fundamental para minimizar o impacto negativo que se tem assistido.

Mathe lamentou igualmente o facto de as infraestruturas de saneamento, na sua maioria, serem antigas e degradadas. Assim sendo, há necessidade de reconstruí-las. Na opinião do coordenador, as valas de drenagem não se mostram em bom estado para a passagem de águas negras, abrindo espaço para o surgimento da cólera.

 “A água que é distribuída nas nossas casas chega com as condições necessárias para o consumo?, Esta questão exige uma resposta multissectorial”, disse, acrescentando que “é também preciso que se avalie as Unidades Sanitárias para se aferir o estado dos lavabos.”

Justifica esta necessidade com o facto de numa pesquisa, levada a cabo pelo OCS, no ano passado, apontar que grande parte dos balneários nas Unidades Sanitárias encontrarem-se em estado deplorável e alguns sem acesso à água potável. “Pressupõe-se que a Unidade Sanitária seja um lugar seguro. No entanto, as pesquisas que realizámos apontam que, devido a condições críticas nos balneários, os pacientes, ao invés de saírem curados, contraem outras doenças”, afirmou Mathe, acrescentando que “uma das medidas principais da Covid-19 era justamente a lavagem frequente das mãos, mas também a prática da higiene pessoal, que vai coincidir com alguns requisitos que são importantes para evitar a cólera.”

Para o coordenador, se o plano de resposta a covid-19 tivesse a eficiência desejada não estaríamos a assistir a estas contaminações por cólera.

Mathe disse ainda que se deve garantir a boa conservação dos alimentos nos mercados e não só.

“A lavagem dos alimentos e higiene no tratamento dos alimentos são obviamente problemas que afectam directamente a nutrição. Se temos pessoas ou cidadãos que não podem se alimentar devidamente, isto também vai ser um factor de risco propício para entrada de doenças como diarreias e outras. Então, esta questão pode ser considerada um factor de risco para a contaminação.”

Como recomendação, o OCS entende que o Ministério da Saúde deve colocar em prontidão uma equipa nas unidades sanitárias e outros locais de maior aglomeração, para sensibilizar as pessoas sobre a eclosão da cólera.

É igualmente necessário resgatar os Activistas Comunitários de Base para que estabeleçam a comunicação entre a comunidade e a unidade sanitária, através da disseminação de mensagens importantes sobre como prevenir a cólera.

“Um plano de contingência, onde pudéssemos acompanhar a evolução de algumas doenças previsíveis nestas época chuvosa, como é o caso da cólera, seria uma alternativa”, vincou, apelando vigilância nos postos fronteiriços, dado que os casos de cólera chegaram a Moçambique através do Malawi.

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