As populações da província nortenha de Cabo Delgado têm sido vítimas do extremismo violento, levado a cabo por terroristas islâmicos desde Outubro de 2017.

Como resultado dos ataques em alusão, de acordo com a Agência das Nações Unidas para os Refugiados, cerca de 1 milhão de pessoas fugiram das suas casas nos últimos cinco anos devido à violência.

Para além de mortes e deslocamentos, diversas infra-estruturas públicas e privadas, incluindo a de saúde, foram afectadas pela acção terrorista.

Quando, em 2021, os terroristas intensificaram os ataques aproximando-se à vila de Palma, a multinacional francesa de petróleo e gás, TotalEnergies, declarou força maior para suspender todas as actividades do seu projecto de gás natural liquefeito (GNL), avaliado em 20 biliões de dólares americanos.

Em seguida, ainda no mesmo ano, como resposta à onda de violência terrorista, o governo robusteceu a capacidade das Forças de Defesa e Segurança de Moçambique (FDS) e lançou uma resposta militar com a ajuda das Forças de Defesa do Ruanda e a Missão Militar da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SAMIM) têm estado a trabalhar com as na luta contra o terrorismo.

Assim sendo, pode-se afirmar que, em 2022, os terroristas foram dominados, tendo-se recuperado as zonas que já se encontravam sob o seu domínio. O auge do sucesso das forças governamentais registou-se quando, em Agosto de 2022, foi abatido o líder dos terroristas, Bonomade Machude Omar, mais conhecido por Ibn Omar, juntamente com outros dois principais elementos da liderança do grupo.     

No entanto, as coisas mudaram nos princípios do ano em curso, registando-se ataques terroristas cada vez mais robustos contra as populações, instituições religiosas e estabelecimentos comerciais.

Quando a TotalEnergies anunciou a retoma das actividades para a exploração do gás de Rovuma, os terroristas intensificaram ainda mais os ataques. Com isto, o governo francês foi forçado a recuar e a aconselhar os seus cidadãos para que não se desloquem para Cabo Delgado e alguns distritos da Província de Nampula.   

Assim sendo, algumas vozes indicam que esta guerra tem motivações políticas ou que tem a ver com as grandes riquezas que esta província possui.

Depois de uma aparente calma, os ataques em alguns distritos daquela região do país voltaram ao rubro nos últimos dias. Pessoas que haviam regressado às suas zonas de origem, depois dos primeiros ataques, tendem a abandonar de novo “as suas residências.”

Esta situação tem originado negativos impactos económicos e sociais. Relatos que nos chegam de Cabo Delgado, relacionados ao sector de saúde, são extremamente preocupantes. Por causa dos novos ataques que vão surgindo diariamente, as unidades sanitárias funcionam com dificuldades, não havendo condições para o atendimento normal aos pacientes.

Algumas unidades sanitárias foram obrigadas a encerrar as portas temendo a invasão dos chamados insurgentes. Consequentemente, as comunidades, incluindo os profissionais de saúde, estão a abandonar as zonas.

De acordo com o delegado provincial da Associação dos Profissionais de Saúde Unidos  e Solidários de Moçambique (APSUSM) em Cabo Delgado, Vitorino José, a situação é crítica.

José descreve o momento como sendo extremamente inseguro, porque se desconhece a hora em que os insurgentes atacarão.

“A situação em Cabo Delgado está muito crítica. Neste momento, há um deslocamento da população, assim como dos funcionários, nossos colegas, que estão a abandonar as zonas de origem, onde há ataques”, relatou.

De acordo com José, por conta do ataque que houve no passado dia 12 de Fevereiro, no posto administrativo de Mazeze, no interior do distrito de Chiure, quatro profissionais de saúde, membros da APSUSM, tiveram que abandonar o local, estando neste momento na vila de Chiure.

Os insurgentes, no ataque em alusão, atearam fogo no centro de saúde local, bem como na secretaria do posto administrativo e na residência do chefe administrativo do respectivo posto.

Além da destruição das infra-estruturas públicas, os insurgentes destruíram a capela pertencente à Igreja Católica.

“Nesta terça-feira, tivemos informações de outros colegas que também se deslocaram, estando alguns por aí nas matas, incomunicáveis por conta do ataque que houve no posto administrativo de Ocua, também em Chiure, em que os malfeitores queimaram um camião de combustível e confrontaram-se com as Forças de Defesa e Segurança”, explicou.

PROFISSIONAIS DE SAÚDE  INCOMUNICÁVEIS

Acrescentou que “neste momento, estou em contacto com a direcção provincial para saber qual é a situação dos colegas e, por via desta, conseguirmos manter um contacto com eles. Ainda não temos informações do local onde estão os colegas que saíram de Ocua. Tentamos fazer contacto com amigos e familiares, mas até agora ainda não conseguimos alguma informação concreta”, lamentou.

José explicou ainda que, mesmo em centros de saúde que não sofreram, “os colegas de saúde vão trabalhar de forma tímida. Há sempre medo, principalmente para os colegas que costumam fazer os trabalhos domiciliários, dando assistência aos pacientes com HIV e SIDA e tubérculos. Isto dificulta não só a entrada nestes sítios, assim como a localização destes pacientes, porque não se encontram mais nos locais habituais”, afirmou.

De recordar que na sessão de 13 de Fevereiro de 2024, o Governo moçambicano, através da porta-voz do Conselho de Ministros, Ludovina Bernardo, pediu calma a população, assegurando que as tropas não estão de braços cruzados e que estão a trabalhar para estancar a situação.

“Queremos garantir que as medidas que as nossas forças estão a realizar para combater o terrorismo são louváveis. Acreditamos que um dia o país poderá ver-se livre do terrorismo”, disse.

Entretanto, os ataques continuam, com sinais de recrudescimento naquela parcela do país.

Segundo o Plano de Reconstrução de Cabo Delgado das zonas afectadas pelo terrorismo 2021-2024, entre os impactos no sector da saúde, consta a destruição total de 10 unidades sanitárias, destruição parcial de 29 e vandalização de 39, de um universo de 131 unidades.

Fica claro que o terrorismo vem agravar a escassez de infraestruturas de saúde a nível do país. Assim sendo, é urgente que se mobilize estratégias mais robustas para combater este fenómeno por parte do Estado Moçambicano. (OCS)

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