O abuso no consumo de drogas constitui um problema social e de saúde pública na maioria dos países pelas múltiplas consequências negativas que provocam sobre o desenvolvimento emocional e físico das pessoas.

O uso de drogas, tanto lícitas, assim como ilícitas pode causar diversos efeitos colaterais no organismo em curto ou longo prazo, com destaque para a mudanças no apetite e no sono, alterações na frequência cardíaca e na pressão arterial, desenvolvimento de doenças mentais e de outras complicações, como o câncer.

A heroína, em particular, é considerada uma droga extremamente viciante e a abstinência extremamente dolorosa, sendo que o seu uso derruba, rapidamente, o sistema imunológico, deixando a pessoa magra, doente e no final leva o indivíduo morte.

O Tratamento com Metadona, um medicamento usado para intervencionar problemas com o consumo de drogas opióides, como a heroína, surge como uma alternativa em vários países para muitas pessoas que pretendem largar o vício e ter de volta a sua vida normal, sem dependência pelas drogas.

Em Moçambique, actualmente, o tratamento com metadona é feito na Clínica Apto, baseada no centro de saúde do Alto Maé, na cidade de Maputo, com uma capacidade instalada para atender 200 pessoas.

O Observatório Cidadão para Saúde (OCS) entrevistou a médica e gestora da clínica de metadona, Yolanda Pinto, para falar da importância deste tratamento para as pessoas que usam drogas, uma vez considerado um medicamento que, também, deixa a pessoa dependente dele.

Para contextualizar, a gestora da Clínica Apto começou por explicar que as pessoas que usam drogas são, muitas vezes, marginalizadas, descriminadas e estigmatizadas e que têm dificuldades de ter o acesso aos serviços básicos de saúde, pela maneira como elas se apresentam, situação causada por estas substâncias químicas.

“Se um usuário de droga vai a um centro de saúde para ser atendido para questões de saúde mesmo, ele não tem acesso pela maneira como ele está vestido e pelo facto de ser um usuário de drogas ou fazer parte da população chave”, disse.

Neste contexto, segundo a médica, a importância do tratamento com a metadona na vida destas pessoas, é, em primeiro lugar, reduzir ou interromper de vez o uso de drogas, neste caso da heroína. Consequentemente, o paciente vai diminuir o risco que corre ao consumir drogas, relacionado com a transmissão de doenças, principalmente se for um usuário de drogas injectáveis.

“Então o tratamento de metadona ajuda o paciente a parar de injectar drogas e consequentemente a diminuir este risco de contrair doenças transmitidas pelo sangue, como HIV, Hepatites virais e outras infecções”, afirmou.

Não só através de métodos injectáveis, disse também, que o tratamento diminui o risco de contrair o HIV através do trabalho do sexo, visto que muitas mulheres fazem este trabalho para sustentar o vício, e, quando a pessoa está intoxicada pela droga, não lembra de usar o preservativo, nem é prioridade para ela usar protecção naquele momento.

“O facto de estar no tratamento já ajuda nesta questão, pois a pessoa está a receber já o tratamento para parar com o consumo de drogas e consequentemente já não precisará fazer estes trabalhos ilegais para sustentar o vício”, vincou.

Por outro lado, de acordo com Yolanda Pinto, o tratamento com a metadona também ajuda a tirar as pessoa da vida da criminalidade, alegadamente porque muita gente acaba entrando na vida de roubar faróis de viaturas, subtrair bens em casa e se envolver em crimes para conseguir dinheiro para droga.

“Se o paciente está no tratamento com a metadona, que é gratuito, ele já não precisa de ir roubar para consumir a droga para sustentar o seu vicio”, reiterou.

CLÍNICA APTO OFERECE OUTROS SERVIÇOS DE SAÚDE

Por outro lado, Yolanda Pinto deu a conhecer, igualmente, que dentro do tratamento, também, são oferecidos outros diversos serviços como por exemplo o tratamento do HIV, visto que é muito difícil para um usuário de droga ir para uma unidade sanitária para receber tratamento por várias razões.

“O tratamento com Metadona recebe estas pessoas. Não se preocupa com a questão de horas, e se a pessoa consumiu ou não. Nós estamos ali para ajudar com tratamento e também ajudar a pessoa no engajamento com esses tratamentos que está a fazer, seja de tuberculose, de HIV ou outros”, sublinhou.

Referiu que geralmente quando as pessoas tomam metadona, já são mais abertas e aderentes ao tratamento de outras doenças, o que significa que a metadona vai proporcionar uma melhora na saúde mental, física e psicológica deste indivíduo.

Reiterou a médica que quando o paciente vai fazer o tratamento com a metadona, é também uma oportunidade de fazer aconselhamento e testagem em saúde para HIV e outras doenças, para falar da prevenção da overdose, para aconselhar o paciente a não ter recaída. “São vários aspectos que são melhorados na vida do individuo graças ao tratamento com a metadona”, frisou.

Por outro lado, disse que o tratamento ajuda, também, na reintegração dos pacientes dentro das suas famílias, uma vez que quando o paciente é usuário de drogas, a família afasta-se porque aquela pessoa tem mau comportamento e rouba. Mas garante que a partir do momento que começa a fazer o tratamento já é uma mais valia tanto para o próprio paciente, como para a família que acaba por aceitar esta pessoa de volta e há uma reintegração também no seio da sociedade.

Afirmou que muitos pacientes depois de começarem o tratamento com metadona conseguem arranjar empregos e outros voltam a reconstituir suas famílias. Falou de alguns casos de sucesso de famílias que se casaram e tiveram filhos estando dentro da clínica, e muitos outros ganhos que são alcançados.

Para desmistificar a questão de se afirmar que dar metadona a um paciente é substituir uma droga por outra, a médica disse que é preciso que se faça muita  advocacia para que as pessoas entendam que a metadona é um medicamento que é usado para o individuo parar o consumo de heroína.

Para ela, nem é preciso falar muito, pois a partir dos resultados que a clínica produz, e o testemunho das próprias pessoas que reconhecem estes resultados, é possível ver que a metadona melhora e devolve a autoestima e a vida dos pacientes em tratamento.

“Não é uma coisa que agente só fala, mas sim a gente pode comprovar através de uma imagem. Então vendo a vida do paciente antes e depois é muito simples perceber que a metadona realmente salva vidas. Se as pessoas só ouvem falar e não veem com seus próprios olhos, é muito difícil de acreditar no tratamento”, salientou.

Relativamente aos desafios, segundo a gestora da Apto, consiste na expansão dos serviços para outras partes do país, tendo em conta que só existe uma clínica de tratamento a nível de Moçambique.

“O principal desafio é não termos acesso do tratamento em todo o país, por limitações em questões do medicamento, pois a quantidade de metadona que chega ao país é insuficiente para fazer a expansão”, revelou.

No entanto, garantiu que trabalhos de advocacia estão sendo feitos com vista a se aumentar a metadona que entra no país.

“Sobre a abertura de novas clínicas é um desafio, mas com uma solução a vista. Ainda não se tinha muita certeza de onde é que as novas  clínicas seriam implantadas, mas isso também está a ser desbloqueado, teremos novas clinicas em quatro pontos do país”, referiu.

Disse que algumas questões políticas estiveram a imperar neste desbloqueio, aventando a possibilidade de talvez existirem pessoas que tomam decisões e que ainda não estão 100% convencidas de que o tratamento funciona, o que para ela é muito normal.

PAÍS TERÁ MAIS QUATRO CLÍNICAS DE METADONA AINDA ESTE ANO

Com vista a alargar o nível de abrangência do tratamento com metadona, Yolanda Pinto fez saber que o país vai ter ainda dentro deste ano, mais quatro clínicas, concretamente no Hospital Geral de Mavalane, na cidade de Maputo, na Matola, Beira e Nampula.

reconhece que não serão suficientes para responder a demanda, mas é um pontapé de entrada para aquilo que será a mudança que se pretende futuramente.

“Existem muitas questões a volta disso e queiramos assistir que estas questões serão ultrapassadas”.

A clinica em funcionamento tem registado, mais de dois mil (2.000) pacientes na lista de interesse/espera.

Mas fora esses, disse que todos os dias a clínica recebe pacientes que vão chorar para escrever os nomes.

“Mas paramos de escrever porque não adianta estar a coletar 10/15 nomes por dia e não estarmos a avançar. Para estarmos a colectar nomes de pessoas, significa que o programa tem que avançar. Se o programa não avança só estamos a chamar pessoas, damos uma esperança que na verdade não temos capacidade de responder esta demanda actualmente”, explicou.

A clínica tem capacidade para 200 pacientes, mas neste momento conta com 204 activos, que tomam metadona todos os dias, o que significa que já atingiu a sua capacidade máxima, dai que são necessárias outras clínicas com capacidade de atender maior número de pacientes.

De referir que o Observatório Cidadão para Saúde está a implementar uma série de actividade com o objectivo de advogar para o alargamento da distribuição da metadona para mais zonas do país, as quais se enquadram no projecto United For Prevention (U4P), que visa garantir que até 2025, a sociedade civil e as comunidades mais afectadas pelo HIV tenham ajudado a conseguir um aumento político e apoio financeiro para os principais marcos da prevenção do HIV em sete países, nomeadamente: Quénia, Malawi, Moçambique, Nigéria, Tanzânia, Uganda e Zimbabué. (OCS)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Banco Nedbank Moçambique

Nº de conta: 00024061001

Moeda: MZN

NIB: 004300000002406100148

IBAN: MZ59004300000002406100148

SWIFT: UNICMZMX

Banco Nedbank Moçambique

Nº de conta: 00024061110

Moeda: USD

NIB: 004300000002406111012

IBAN: MZ59004300000002406111012

SWIFT: UNICMZMX

×